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JRP Sejamos francos: gibis não funcionam mais no Brasil. O primeiro motivo que levou o leitor a rechaçar os gibis como entretenimento foi, primeiro, suas péssimas histórias. Seguindo
sempre os passos da Editora Abril, editoras menores insistiram
em seguir as mesmas fórmulas que não deram certa nesta grande
editora. Eles publicavam material que ela rejeitava ou apelavam
para títulos ditos "alternativos", que mais agradavam aos
sonhos de infância do editor e menos ao leitor comum. O segundo motivo foi a queda na qualidade das histórias. Os leitores não agüentavam mais os dramas vazios e sem sentido do Super Homem, nem as mesmices do Homem Aranha, e muito menos se interessaram pelas caras feias de Spawn. Na teimosia de republicar material americano, achando que "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil", os editores de quadrinhos investiram pesado em licenciamento, produção e gráfica, para acabarem com encalhes monstruosos. Houve uma tentativa absurda de publicar histórias mais sofisticadas, em papel e acabamento melhores, e por isso com preços mais altos, com resultados conhecidos: a Abril cancelou praticamente todos os seus gibis e centenas de pessoas perderam seus empregos. O terceiro motivo foi o preço de capa, que de repente disparou a níveis incompatíveis com o bolso do leitor de banca. Tanto que gibis P&B, notoriamente populares, ficaram tão caros quanto gibis coloridos. O terceiro e mais grave motivo foi a dramática falta de contato dos editores com o leitor comum. Esse que passa na banca e que lia e colecionava gibi, se emocionando com as histórias sem maiores pretensões. Os editores, assessorados por fãs travestidos de experts, optaram não tornar o gibi acessível; preferiram caminhar em sentido contrário, elitizando o gibi, tornando-o um produto para poucos, distribuindo-os apenas em livrarias ou gibiterias. Aí reside o grande erro dos editores brasileiros, senhores! Gibis são produtos de consumo popular. Suas temáticas quase sempre abordam dramas do cotidiano dos leitores, criando situações de aventuras, drama e mesmo romance superficiais, o que torna o gibi palatável à grande massa. Contudo, os editores acharam que por ter pouco leitor, gibi é artigo de luxo. Acharam que o povo da banca não mereceria ser levado em consideração. Os editores, ao invés de olharem para os próprios erros, culparam, como sempre, o leitor. Assim sendo, os editores foram levando seus títulos e objetivos, lentamente, para um microscópico grupo de leitores. Leitores que lhes paparicavam em convenções, exposições, sites e faziam pressão com e-mails. Leitores que faziam muito barulho, mas que compravam (e compram) o mesmo que nada. O resultado aí está: as bancas estão praticamente vazias de gibis, pois não houve uma adequação dos editores aos novos tempos. Todos os
editores de gibis preferiram dar ouvidos aos seus puxa-sacos,
bajuladores e "intelectuais" dos quadrinhos... ignorando
definitivamente o leitor de banca. Por outro lado, a chegada dos mangás, que venderam muito num primeiro momento, também não serviram de alento ao mercado. Títulos foram cancelados, tiragens foram dramaticamente reduzidas e certos títulos sobrevivem graças a acordos com as distribuidoras, que deixam as revistas por mais tempo na banca. Mas até esses títulos, cujo apelo estava ligado aos desenhos da TV, também estão sendo rejeitados pelos leitores, pois seus preços de capa estão nas alturas. E as histórias são ruins até para quem gosta de mangá! Ou seja: repete-se com o mangá o que aconteceu com os comics! Como resolver isso? A solução está num grande repensar por parte dos editores do que eles realmente querem fazer de suas empresas: ou são editoras sérias, ou masturbadores dos egos de seus donos e cupinchas. É preciso esvaziar as "panelinhas" das editoras, é preciso afastar os bajuladores e metidos a entendidos, que lá estão apenas para terem seus trabalhos publicados. É preciso dar um basta nesse colonialismo burro, que republica e republica material americano, europeu e japonês como se fossem estes as eternas soluções de divertimento e lazer do leitor... E investir no artista nacional. Um momento! Não me refiro ao desenhista nacional que faz gibis que agradam a sua turminha da Internet ou seus colegas de faculdade de arquitetura! Não me refiro ao roteirista que faz quadrinhos por ser fã de mangá e muito menos me refiro à equipe de "quadrinheiro"s que faz revistinhas de RPG para ser vendida em eventos. Me refiro ao desenhista, ao roteirista e à equipe de quadrinheiros que tem algo novo, diferente e divertido para ser levado ao leitor. Esse não é um trabalho fácil, reconheço. Não é um trabalho simples. Só que a criatividade, a ousadia e o deboche do brasileiro já nos deu incontáveis provas de que somos bons nos quadrinhos quando queremos. Que temos alguns dos melhores artistas do mundo (tanto que muitos deles já desenharam nos EUA e Europa). Só não temos um editor sério que pegue esse povo pela mão e lhes direcione ao mercado, criando gibis pensados para nós e, por isso, voltados para nós. A resposta é essa: façamos gibis primeiro para todos nós, não para agradar a elitezinha ridícula e insignificante de fãs de comics de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Sul do país. Esse pessoal não compra gibi mesmo... Pra que investir neles e dar as costas aos milhões de leitores que, hoje, estão órfãos, ou estão nas mãos do nefasto Maurício de Souza? Pra terminar, um exemplo rápido: depois da Segunda Guerra, o Japão não tinha quadrinhos para a grande massa. Os quadrinhos que haviam, eram alugados, pois o pessoal não tinha dinheiro para comprar. Um editor esperto fez pequenas revistas em papel reciclado vermelho, e as vendeu baratíssimo. Nasciam os Akai-hons, uma espécie de fanzine popular... mas que contava histórias de terror, aventura, policial e mesmo ficção-científica. Enquanto que se gastam milhares de reais com licenciamentos, capas-duras, papel couchê e tiragem de 2.000 exemplares, ao meu ver, um editor inteligente e ousado poderia fazer a mesma coisa aqui no Brasil. Não é a melhor das saídas mas é um excelente começo para se recuperar uma indústria fantástica, que foi literalmente destruída pelos próprios editores cegos, surdos, colonizados e egocêntricos. |
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