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Entrevista exclusiva: MARIO LATINO

 

Por Magno Soares

magnosoares@ligazine.com.br

Estava eu na Rodoviária Tiête em São Paulo - SP esperando para embarcar num ônibus com destino a cidade de Niterói - RJ, quando entrei na banca e fiz um ótimo achado, a revista GrapHiQ número 19.

"Devorei" rapidamente a edição. Ao me acomodar em minha poltrona, já tinha lido todas as tiras de 'Roberval', 'Capitão Trovão' e 'Bob "The Kid"'. Então fui apresentado ao universo criado por Mario Latino. Ao ler as tiras de 'Roberval', a identificação com o personagem foi automática. Roberval é um cartunista que trabalha em casa e tem que lhe dar com todos os problemas do dia-a-dia.

Ao iniciar a pesquisa para entrevistar o Mario Latino, me surpreendi. Conheci uma pessoa com um histórico de vida muito rico e um 'verdadeiro guerreiro' da vida.

Mario nasceu na Nicarágua, lutou, literalmente, com armas à mão, para libertar seu país de uma ditadura de mais de cinqüenta anos, foi preso por não querer entrar num esquema de corrupção e veio para o Brasil. Qualquer pessoa depois de passar por uma revolução armada e ser punido por não querer se corromper, teria todos os motivos para querer uma vida na "água e sombra fresca". Mas como disse, Mario Latino é 'guerreiro', resolveu entrar numa nova batalha: ser quadrinista no Brasil.

Fique com esta entrevista exclusiva que Mario Latino concedeu a Liga Fanzine e conheça um pouco mais de seu histórico e seu trabalho.

LIGA FANZINE: Você tem uma história de vida rica. Conte-nos um pouco do tempo do “Mario Revolucionário”.

Quando era jovem, na Nicarágua dos anos 70, participei da luta contra a ditadura Somocista. Para ter uma idéia do que isso significa, a família Somoza estava no poder há 50 anos. É dizer, quando meu pai nasceu os Somoza estavam no poder. Dominavam tudo: indústria, construção, exportação e importação. Tinham fazendas, bancos e até a marinha mercante era deles. Tudo isso enquanto o país estava na miséria. Até com o terremoto de 72, que destruiu a capital eles lucraram, desviando o dinheiro da ajuda internacional e reconstruindo parte da cidade com suas construtoras. Esse era o meu país quando eu decidi partir para a luta armada. Nessa época tinha uma organização guerrilheira que lutava contra os Somoza desde o início dos anos 60. Se chamava FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). Na época em que ingressei no FSLN esta era já uma organização curtida pelos quase 20 anos de luta na qual tinha perdido seus melhores quadros revolucionários. Eu fui para a guerrilha urbana e passei rapidamente a ser chefe de um núcleo de combatentes urbanos, a maioria deles originários da classe operária. Naquele grupo eu era o único que vinha da universidade. Como chefe dessa célula guerrilheira, participava e comandava ações combativas variadas (assalto a bancos, emboscadas a veículos militares do exército de Somoza). Tive a sorte de ter sob minhas ordens combatentes corajosos e disciplinados, dos quais até hoje me lembro com saudades. Nessa atividade clandestina fui ferido duas vezes em combate, numa delas gravemente, pois a bala me atravessou o pulmão e passou a milímetros da espinha dorsal. Tive a sorte de sobreviver e participar da ofensiva final que aconteceu entre junho e julho de 1979. Mais tarde, com o triunfo da revolução me integrei ao novo exército revolucionário, no qual estive durante 7 anos. Foram os duros anos da luta contra os "contras" que a administração Reagan apresentava como "combatentes da liberdade", sendo que não eram mais que os sobreviventes do exército de Somoza, alimentados e treinados pela CIA. Em 87 tive problemas com um chefe militar que me ofereceu participação num esquema de corrupção (uma das causas da nossa luta contra a ditadura somocista). Eu denunciei o esquema mas ele tinha o poder do seu lado. Fui condenado pela justiça militar por "desobediência" e "intento de rebelião" a 4 anos de cadeia. Nessa época minha família ficou desamparada e familiares da minha esposa que moravam nos Estados Unidos vieram em sua ajuda e eu aceitei que ela e meus dois filhos fossem para aquele país(!)

No final do ano de 1987 consegui fugir para o Brasil. Tive que arrumar documentação falsa e isso me criou uma encrenca federal aqui. Minha intenção original ao vir aqui era permanecer temporariamente no Brasil e depois procurar me unir a minha família nos Estados Unidos. Só que minha situação não era fácil. Em Brasília arrumei emprego como engenheiro civil e tentei o visto inúmeras vezes, sem resultado. Finalmente, depois de vários anos nessa luta, minha companheira e eu decidimos nos separar. Nessa época, além de trabalhar como engenheiro, eu treinava a equipe de taekwondo do Distrito Federal e obtinha ótimos resultados nacionais e internacionais. Em 1992 mudei para São Carlos, interior de São Paulo. Casei de novo e comecei minha "carreira" como quadrinista. Publiquei fanzines e criei personagens para os diversos jornais da cidade, fiz charges, cartoons e dei cursos de quadrinhos nas oficinas culturais da região, enfim... Em 1997 prestei vestibular para Letras na Universidade Federal de São Carlos e passei. Me formo em fevereiro de 2003. 'Descassei' novamente em 2000. Nesse mesmo ano arrumei outra companheira.

Em 1993, você publicou dois números do ‘X-Comisc”. Por quê resolveu editar fanzines?

Na verdade eu queria ser quadrinista daqueles que publica numa revista mensal e recebe pelo seu trabalho, mas isso não era nem é possível até hoje. E meu traço não era aquelas coisas. Quando vejo o material daquela época sinto até vergonha. Sendo assim, o único caminho era o dos fanzines. Em São Carlos tentei montar um grupo que trabalhasse junto, mas isso era utópico. Sempre tinha "estrelas" sem tempo para assumir um compromisso ou furões. Decidi agir sozinho e lancei o 'X-Comics' em 93. Era uma porcaria de qualquer ponto de vista. Fiz uns cartazes de divulgação e a oficina cultural bancou uma festinha com refrigerante e vinho. Eles também bancaram o papel e eu só tive que correr atrás de patrocínios para bancar a impressão (300 exemplares com capa em cartolina) em xerox. Na festa de lançamento até que apareceu bastante gente e vendi entre 50-60 exemplares. Na época fiquei até chateado porque achava pouco. Mal conhecia o mundo fanzineiro. O 'X-Comics 2' foi publicado um mês depois, sem apoio de ninguém.

Você sempre gostou de HQ ou a paixão surgiu mais tarde?

Eu gosto de HQ desde criança e isso se deve ao fato de meu pai também gostar de HQ. Já adolescente tive a sorte de acompanhar ao vivo toda a época do Homem-Aranha de Steve Ditko e os 4 Fantásticos de Jack Kirby. Depois os trabalhos de John Romita e Gil Kane. Mais tarde conheci as histórias do Fantasma feitas por Ray Moore, Flash Gordon de Raymond, Agente Secreto Corrigan de Al Williamson e muitos outros, quase todos eles pertencentes ao período clássico.

A tira do ‘Roberval’ é baseada no dia-a-dia de um cartunista que trabalha em casa, enquanto tem que lidar com os problemas da sua profissão e da família. O Roberval é você? É baseado em suas experiências pessoais?

Boa parte das experiências de Roberval são minhas, sim. E o "Júnior" é baseado na minha enteada, Naira. Aproveito a tira para refletir um pouco sobre tudo: a vida, os ideais, quem somos, para onde vamos.

Além de Roberval, você é autor de outras tiras? Quais?

No início cheguei a fazer outras tiras como "Os Coiotes" (faroeste), "Nick Martins" (policial e ficção científica). Era um trabalho bonito porque era de aventuras. Fazia sem compromisso e sem roteiro. Isso era bom porque era ação ininterrupta. Mais tarde me centrei mais nas tiras de humor e tenho desenvolvido as tiras do "Capitão Trovâo" (super-herói), Bob "The Kid" (faroeste) e "Agente Secreto 000125" (espionagem).

Você publica tiras diárias de jornal? Como é a rotina de trabalho?

Publico tiras para jornal há 5 anos. Aqui em São Carlos o jornal em que comecei publicava 4 tiras diferentes todos os dias. Hoje publico duas tiras de Roberval e outras duas tiras, também todos os dias. O jornal não paga nada e tenho que procurar patrocínios/anunciantes para minha página. Como vc pode ver a rotina é estafante: tenho que fazer 4 tiras todos os dias (roteiro, desenho, arte-final) e ainda procurar anunciantes e cobrar (o que não é fácil).

Você produz a revista GrapHiQ sozinho?

O termo certo é "produzia", pois a revista está suspensa desde o ano de 2001. Pois é, eu fazia quase toda a revista. De vez em quando aparecia outro "ingênuo" com colaborações (histórias em quadrinhos ou artigos), mas essencialmente era um trabalho de um homem só.

A quanto tempo ela vem sendo publicada?

A Graphiq fo publicada de março de 1998 até junho de 2001. Foram 20 edições, sendo que as primeiras 14 foram publicadas em tamanho tablóide e as últimas 6 no formato "revista". Acabei desistindo porque a distribuição mata. Afinal, eu tinha que fazer tudo: desenho, arte-final, diagramação, escrever artigos, conseguir anúncios e (depois de mandar para a gráfica) distribuir!

Encontramos a GrapHiQ em alguns lugares de São Paulo, como é feita a distribuição?

Podem encontrar algumas edições do Graphiq na banca da rodoviária Tietê e na DEVIR. Nesta última deve ter um encalhe do cacete.

O você espera para o futuro?

Um milagre, algo assim como trabalhar pro exterior ou que os "bundões" da Folha de São Paulo acordem e percebam que Iturrusgarai não desenha bosta nenhuma, que Angeli já deu o que tinha que dar e que as tiras do Hagar estão uma merda.

E o que podemos esperar para o futuro?

Não sei. Eu já estou meio cansado. O panorama das HQ tá uma merda. O leitor de HQ se conforma com qualquer coisa e quadrinhos bons sumiram do mercado há quase uma década. Os mangás me estão enchendo o saco e o Ken Parker (a única coisa boa entre essa mesmice) acabou.

 

AS TIRAS DE MARIO LATINO

ROBERVAL

A tira é baseada no dia-a-dia de um cartunista (Roberval) que trabalha em casa, enquanto tem que lidar com os problemas da sua profissão e da família. Como todo sonhador, o protagonista encara a vida com a boa fé dos ingênuos. Sua meta é chegar a ser um cartunista de sucesso, mesmo que para isso tenha que penar anos. Incansável leitor de novelas policiais, ainda tem a ilusão de se tornar um escritor do nível de Dashiell Hammet, James Cain Ross Mc Donald e Raymond Chandler, seus maiores referenciais no gênero. Como qualquer mortal, Roberval tem seus defeitos. É preguiçoso, folgado e machista. Adora uma boa refeição, preferivelmente fora do horário, e toma banho só quando é absolutamente necessário. Vive às turras com seu filho, o Júnior, a quem pretende educar sob padrões de comportamento que ele mesmo teria dificuldades em obedecer. Ele atualmente desenha uma tira de humor e aventura chamada "Capitão Trovão e Faísca", sátira ao gênero dos super-heróis, roteirizada pelo filho. As personagens desta tira têm as mesmas características fisionômicas de Roberval e Júnior, o que faz supor que ambos heróis sejam eles mesmos. Como Roberval trabalha em casa, é normal vê-lo o dia inteiro de bermuda e chinelos.

A esposa de Roberval é o contraponto da história. Se aquele é o sonhador inconseqüente, ela é a mulher prática, com os pés no chão. Eficiente funcionária pública, passa o dia inteiro trabalhando duro em algum tipo de repartição. Terminado o expediente, encara a difícil tarefa de levar a direção da casa com energia e determinação. Para isso ela tem que conseguir a colaboração do marido e do filinho. Tendo motivos para uma existência amargurada, encara a vida com estoicismo e uma certa dose de alegria.

A terceira personagem da história é Roberval Júnior, o rebento do casal, que aparece na tira com uma idade que flutua entre os oito e dez anos. Como acontece com os garotos das tiras em quadrinhos, Juninho - como é mais conhecido - é o produto da nossa época. Espertinho e sempre querendo tirar proveito das situações, ele está se tornando uma personagem indispensável para o bom andamento da história. Bagunceiro e folgado, passa a maior parte do tempo esquivando-se de qualquer responsabilidade no lar. Nisto o moleque é incentivado pelo exemplo do pai. Mas, Juninho não é, unicamente, um garoto levado. Ele, também, possui uma boa dose de imaginação que o ajuda a levar com mais facilidade o pesado fardo do dia-a-dia. Com sua turma de colegas -Fabinho, Dudú e Cidão - o herdeiro da família Roberval vive num mundo mágico, o mundo das crianças, para o qual tem inventado personagens como o Dr. Spikes e Dick Garland, o correio do Pónei Express. Atualmente roteiriza as aventuras do Capitão Trovão.

A tira, é uma boa oportunidade para discutir problemas existenciais e de relacionamento, valores e atitudes do homem ante o mundo de hoje.

CAPITÃO TROVÃO E FAÍSCA

Esta é uma dupla de super-heróis que combate o crime na imaginária cidade de Sanca City, à maneira de Batman e Robin. Como super-heróis, ambos tem um rígido código de honra e coragem a toda prova, o que para os padrões éticos de hoje é um crime. Esta tira é uma parodia ao mundo dos super-heróis e, por isso não é estranho que apareçam nela, eventualmente, heróis mais conhecidos como o Batman, o Homem-Aranha, Wolverine, Super-Homem e o Hulk, tudo na maior gozação. Outras personagens da tira são o professor Z e o andróide CT-001, uma cópia do Capitão Trovão, feita pelo professor Z para ajudar nosso herói a tomar conta da cidade.

BOB "THE KID"

Nosso protagonista é uma personagem do mítico faroeste. Como xerife de uma cidadezinha remota do Arizona, representa a lei e a ordem. Para isso ele conta com a ajuda de Lobo Jack e de um indiozinho que responde ao nome de Pena Torta.

ROBER VOND, AGENTE SECRETO 000125

Não é necessário dizer qual é a inspiração para esta personagem que, no melhor estilo Sean Connery, luta contra as forças do mal. Recentemente ganhou a colaboração do agente secreto 000130, a quem ele deve treinar na difícil arte da espionagem. Seu principal inimigo é o chefe de Spectre, o sinistro Tibúrcio Blofeld, nitidamente inspirado na figura de Telly Savalas. Ocasionalmente temos a intervenção da agente secreta 000129, pela qual nosso herói tem certa queda. Outras personagens coadjuvantes são o chefe do agente 000125 e o funcionário de apoio logístico, certamente inspirado em "Q", da série do agente 007.

 

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Mario Latino

site: www.graphiqbrasil.com

e-mail: mariolatino@yahoo.com e graphiq_br@yahoo.com

 

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