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Acabaram os quadrinhos Abril!!!

 

Por Flávio Calazans

calazans@bignet.com.br

Li no jornal a “TRIBUNA” de Santos - SP do dia 08 de julho de 2002 uma notícia que confirma minhas estimativas escritas em um artigo que estou terminando: Batman, Superman, Liga da Justiça e toda linha DC Comincs não será mais publicada no Brasil, a Editora Abril informou aos USA a suspensão das publicações a partir de julho de 2002.

Em agosto sairá, cumprindo contrato, mesmo com prejuízo devido ao encalhe e vendas irrisórias, o terceiro volume deficitário do retumbante fracasso “Batman - Cavaleiro das Trevas 2”, encerrando a parceria DC/Abril que durou 23 anos.

Com tiragem de 70 mil exemplares, as revistinhas em formatinho de dois Reais e cinqüentas cents mal chegavam a vender 15 mil exemplares em todo o Brasil, segundo o Sérgio Figueiredo – Consultor da Redação da Abril, “não interessa fazer tiragens tão baixas, elas não dão lucro em um mercado tão em queda como o de quadrinhos”.

A tentativa de recuperar o mercado de HQ chegou a uma inútil campanha publicitária de 300 mil Reais com filmes na Globo, SBT e Record. “Paradoxalmente, a bilheteria de filmes como Homem Aranha não reflete-se nas vendas das revistas de HQ” disse Figueiredo.

Helen Fakhrs - representante da DC, explica que outra editora deveria adquirir toda a linha de publicações, não negociando títulos separados dispersos.

Tudo isto é um sinal do esgotamento da HQ no mercado internacional, saturação natural de uma signagem redundante que não soube desenvolver-se. Como entretenimento foi superada pelos videogames, resistindo como subproduto descartável ligado a desenhos animados japoneses cujo carro chefe é o videogame e produtos licenciados de merchandising.

A linguagem da HQ iniciou-se no final do século XIX e primórdios do XX como mera ilustração de jornais confundida com charge editorial (acompanhando a tecnologia gráfica ficando coloridos com o gráfico Benday nas charges Yellow Kid), depois cresceu em complexidade em cadernos dominicais de jornais (Tarzan, Príncipe Valente, Spirit) e revistas seriadas na europa (TinTin, Métal Hurlant, etc), colecionando em álbuns, atingindo o potencial máximo de sua complexidade no final dos anos 1960 , chegando até a ser chamada de NONA ARTE (Asterix, Saga de Xam, Valentina), tendo alguns autores cult como expoentes europeus (Moebius, Caza, Druillet, Crepax, Pacienza, Allan Moore, Neil Gaiman), até o final do Século XX quando o interesse por entretenimento interativo dos adolescentes e crianças migrou do suporte papel dos gibis e quadrinhos para as telas de videogames e Internet.

E assim termina a breve história dos quadrinhos, ao contrário do CINEMA que adaptou-se bem ao video-cassete e DVD, mídia em movimento eletrônica e digitalizada transferível para CD-Rom e Internet.

O gênero da Cultura de Massas dos Quadrinhos foi sendo reduzido a meras tirinhas de jornal e piadinhas ilustradas-cartoons, houve uma breve sobrevida com o mangá japonês porém atrelada ao merchandising e aos videogames divulgados em dumping pelos desenhos animados televisivos, estratégia desesperada que revelou-se um recurso ineficaz e logo esgotado.

Analisando pelo Marketing, a curva do ciclo de vida do produto “quadrinhos” iniciou-se por volta de 1896 com strip comics (como Yellow Kid), ergueu-se na fase crescimento com super-heróis em 1938 (Superman, Batman, - depois reformulado em Spiderman), atinge a maturidade no segmento adulto erótico em 1962 (com Barbarella de Forest e Valentina de Crepax), e o nicho poético-filosofante-intelectualóide-politizado em 1968-1970 (Álbuns como Saga de Xam e autores tais quais Bilau, Caza, Druillet, Allan Moore, Neil Gaiman, Jim Starlin), chega a saturação com relançamentos e reformulações ou eventos artificiais em 1980 (iniciado com o casamento do Fantasma, seguido de casamentos de Donald, Superman, Spiderman e outros, além de inúmeras mortes e ressussistamentos de Fênix, Batman paraplégico, etc), para atingir o declínio em 1996 como mero terceiro subproduto (mangás fruto de videogames adaptados até em desenhos animados de televisão como Pokémon) aproximando-se do cancelamento final com o cancelamento óbvio e previsível da linha DC pela editora Abril em julho de 2002.

1986 com o "garotinho amarelo" até 1996 com Pokémon, um ciclo respeitável de 100 anos fechando a história dos quadrinhos, este momento atual inercial é de um gênero da cultura de massas moribundo em 2002 desacelerando vendas e produção.

Hoje o mercado de HQ no mundo restringe-se a sub-produto insipiente descartável e a um-quase sem interesse de mensuração - passatempo ocioso de nostálgicos colecionadores saudosistas (e alguns poucos pesquisadores universitários resistentes a extinção da linguagem dos quadrinhos não considerados sequer como insignificante sub-nicho de mercado).

Os quadrinhos sempre foram politicamente incorretos, pois seu conteúdo discutível foi acusado de “sedução dos inocentes” e de roteiros maniqueístas previsíveis e infantilóides; além de instrumento de propaganda imperialista subliminar (Capitão América, Tio Patinhas, etc.); e seu suporte papel tinha um custo ecológico desmatando florestas por celulose - sequer reciclada como o exemplo do mangá japonês, assumidamente descartável.

Sinal dos tempos, Wolksgeist: "a voz do povo é a voz de Deus", ... E é hora de aceitar realisticamente os fenômenos sociais vivos.... Eu mesmo gostava muito de quadrinhos, cheguei a investir energias pessoais neste gênero, pois fundei e coordenei um grupo de pesquisa em quadrinhos, o GTHQ, e da massa de pesquisas a que tive acesso, bancas de mestrado que participei, etc pude constatar os limites estreitos da HQ e sua falta de perspectiva de futuro como linguagem já saturada e entrópica, ...no meu marketing pessoal de carreira acadêmica estive sempre investindo paralelamente em uma carreira de pesquisador ligada a tecnologia eletrônica como subliminar, realidade virtual e outros temas de interesse social e utilidade pública.

Aconselho a outros pesquisadores e artistas que observem atentamente os fatos reais ocorrendo, os sinais e sintomas evidentes antes de investir em um tema enterrado e sem futuro, ainda há tempo para voltar-se aos CD-Roms e Rede Telemáticas.

Desafio outras análises que contraponham COM FATOS este parecer de mercado que traço aqui.

Abertos os debates.

(Será que isto interessa a alguém além do sub-nicho de resistentes colecionadores afetivamente nostálgicos? Seria pauta jornalística?).

 

>> Leia a coluna de Flávio Calazans = CALAZANIANISMO

 

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