Poesia:
A luz de vela

 

 

 

 

 

 

Quando eu era menina no passado
vagava pelas sendas de meu ser
me procurando.
Brincava de casinha,
fazia ambrosia de mentira,
e embalava bonecas de pano
com caras de bruxas.

Quando eu era menina no passado
tinha medo do escuro,
das carícias e dos fantasmas desenhados pelo balanço das folhas nas paredes de meu quarto iluminado
à luz da vela.

Então eu procurava tesouros
escondidos no sótão de meu corpo,
sonhava com sapatinhos vermelhos,
ouvia a minha avó contar histórias,
de princesas que beijavam príncipes
disfarçados de sapos.
E queria virar gente grande.

O vento levou o tempo
as sementes mastigadas germinaram
as histórias de fada viraram verdades
e o espelho me diz:
eu sou você
que no tempo viajamos juntas.

A luz dourada projetada nas paredes
ainda é a mesma no meu quarto.
Agora faço ambrosia de ovos com açúcar
e aceito carícias.
Embalo bonecas de carne
com rostos de anjos,
mas ainda temo os fantasmas
desenhados pelas folhas balouçantes
nas paredes do meu quarto,
iluminado à luz de vela.

 
   

Nilza Amaral

 
     
 

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Nilza Amaral
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