Especial Poético:
Amor Enamorado (Kátia Drummond)

 

 

 

 

 

 

- ITINERANTE AMOR

- AMALGAMADAS ALMAS NUAS

- MINHA ALMA GÊMEA

- SEMEADURA

- RANCHO PRA QUEM VEM DE FORA

 
     
 

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Especial Poético: Amor Enamorado (Kátia Drumond)
ITINERANTE AMOR

 

 

 

 

 

 

Arde-me inteiro o itinerante e débil amor.
Rio caudaloso a percorrer montanhas.
Indomável cachoeira a trovejar,
até tombar na abismal planície
e cavalgar-lhe todas as entranhas.

E trôpego, ainda rastejar,
qual suicida, arrependido e débil,
cambaleando pra qualquer lugar.

E sôfrego, ainda palpitar
seu último suspiro. Estertor.
Até morrer, silencioso e inerte,
no jazigo abissal do imenso mar.
Cala-me inteiro o errante e vil amor.

 
   

Kátia Drummond
Salvador Bahia Brasil.

 
     
 

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Especial Poético: Amor Enamorado (Kátia Drumond)
AMALGAMADAS ALMAS NUAS

 

 

 

 

 

 

Não nos deixemos sós, os dois, as duas.
Nossas amalgamadas almas nuas,
entrelaçaram nosso ir e vir.
Sem nós, não saberíamos seguir.
Qual alma gêmea, qual, encontraríamos
tão igualzinha a mim, tão igualzinha a ti?

Se juntos habitamos o mesmo templo,
se percorremos sempre a mesma estrada,
Se adormecemos sob os mesmos sonhos
e tatuamos os mesmos lençóis.
Se juntos somos tudo, somos nada
e se ardemos sob tantos sóis.
Se as nossas vidas vivem entrelaçadas,
se já nos entregamos um ao outro,
se não sabemos desatar os nós?

O que fazer então os dois sozinhos,
perdidos animais, fora do ninho,
qual de nós dois encontraria a porta,
se há tanto tempo essa cumplicidade
nos transformou em natureza morta?

 
   

Kátia Drummond
Salvador Bahia Brasil.

 
     
 

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Especial Poético: Amor Enamorado (Kátia Drumond)
MINHA ALMA GÊMEA

 

 

 

 

 

 

Se artista, não sei.
Talvez arcanjo.
Cupido esculpido em mim.
Tatuagem de dragão,
um fugaz camaleão,
fogo de palha, água viva,
anjo torto, ave cativa
na iluminada manhã.
Espírito de Tupã.
Minha alma gêmea é assim.

É palhaço e carpideiro.
É domador e leão.
Deus, vestido de diabo.
Ardiloso como um gato,
submisso como um cão
ladrando no meu jardim.
Maltrapilho como um pobre,
cortejado como um nobre.
Vilão do cinema mudo.
Lendário ser absurdo.
Minha alma gêmea é assim.

Esse menino traquina
mais parece uma menina,
com seus cabelos de seda
e seus lábios de carmim.
De dia, ele me persegue.
De noite, ele me procura,
como a lua em noite escura.
Translúcida água pura.
Minha alma gêmea é assim.

Ele segue o meu caminho,
acompanha a minha trilha.
Às vezes é minha mãe,
minha irmã e minha filha.
Meu infiel companheiro
está comigo o tempo inteiro.
Vive todinho pra mim.
Dublê de homem e profeta,
de poeta e de pintor.
O mais audaz construtor.
Hóstia e vinho. Carne e sangue.
Minha alma gêmea é assim.

Eu já nem sei se sou ele.
Ou se ele eu em mim.

 
   

Kátia Drummond
Salvador Bahia Brasil.

 
     
 

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Especial Poético: Amor Enamorado (Kátia Drumond)
SEMEADURA

 

 

 

Para Cláudio Paulo, meu companheiro

 

 

Quando tu chegastes aqui, todo floresta,
a sala ficou úmida e singela.
Suave era o cheiro de cipreste,
que eu nunca vira antes algo assim.
Brotavam flores de dentro de mim!

Cavalheiro, de onde tu viestes,
tu me trouxestes a bela estrela guia
que faz a noite parecer mais dia
e o dia florescer subitamente.
Não ouço mais gemidos, cantam arcanjos.
Parece que tu tens em ti um anjo
e que esse anjo ilumina a gente.

Angelical, tocastes meus cabelos.
E por instantes, todos os meus pêlos.
Enquanto tu chegavas, eu te queria.
Entre a flora e a fauna da floresta,
uma voz abençoada me dizia
que o éden eras tu e que eu devia
gozar contigo a virgem que me resta.

Eu nunca vi jamais tanta inocência,
que a minha pele rubra, qual carmim,
alguma coisa, é certo, te pedia.
Alguma coisa clara, manifesta.
E tu, brilhando estrelas sobre mim,
me davas o mistério indecifrável
da imaginação e da alquimia
de ser a fada azul da tua festa.

E quando tu te fostes, enfim, floresta,
lancei meus passos nus, incandescentes,
em busca do teu rastro, simplesmente.
Eu percebi que as trilhas se fechavam.
Maldisse a vida. Desejei a morte.
E vi que tu havias me deixado
a sorte de me abrir alguma fresta.

No afã daquela estrela que eu seguia,
compreendi, então, que a noite e o dia
são mais que luz e sombra. São magia!
E eu, essa pequena criatura,
desejei ser tua vã semeadura.
E quis, então, florar dentro de ti
a árvore da vida e da ventura!

 
   

Kátia Drummond
Salvador Bahia Brasil.

 
     
 

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Especial Poético: Amor Enamorado (Kátia Drumond)
RANCHO PRA QUEM VEM DE FORA

 

 

 

 

 

 

Seu moço que vem de fora,
que traz de bom para mim?
O meu amor não tem hora,
o meu cantar não tem fim.
Seu moço que vem de fora,
goste um pouquinho de mim.

Sei fazer colar bonito,
sei fazer versos de amor.
Sei fazer pote de barro,
sei cantar sem ser cantor.
Sei bordar o meu vestido
e esconder a minha dor.

Seu moço que vem de longe,
que tem de bom pra me dar?
Pra você eu tenho a aurora
e tenho a luz do luar.
Seu moço que vem de longe,
que tem de bom pra me dar?

Eu sou a filha mais velha,
meu saber eu vou contar.
Sei de onde vem o rio,
sei das estrelas do mar.
Sei pra onde vai a lua,
sei sempre o sol onde está.

Seu moço que vem de fora,
me responda sem pensar:
em que caminhos da vida
eu posso amor encontrar?
Se escondido nas flores
ou nas estrelas do mar.

Se nas flores, colho todas.
Se no mar, vou me afogar.
O meu amor não tem hora,
é sem fim o meu cantar.
Seu moço que vem de fora,
que tem de bom pra me dar?

 
   

Kátia Drummond
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