Especial Poético:
Kátia Drummond - Parte 1

 

 

 

 

 

 

- EXÉRCITO DOS ANJOS

- CARTA DE ALFORRIA

- POÉTICA

- MATER DEI

 
     
 

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Kátia Drumond

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
EXÉRCITO DOS ANJOS

 

 

 

 

 

 

Pequenos, barrigudinhos

Olhares tristes, mansinhos

Sorrisos amarelados

Perambulam nas esquinas

Frágeis como passarinhos

Os meninos e as meninas

Filhos das filhas das ruas

Donos dos bancos das praças

Pés-de-vento, pés descalços

Desamados, destemidos

Perseguem-lhes os cães de raça.

Vira-latas das esquinas

Frágeis aves de rapina

Armados de pedra e pau

Os meninos e as meninas

Pastores das alvoradas

Atravessam madrugadas

Sempre em estado de graça

Adormecem ao relento

Parecem donos do tempo

Perseguem-lhes os cães de caça.

Borboletas sob o sol

Vaga-lumes sob a lua

Sem presente e sem porvir

Quebram cercas, pulam muros

Sem saber pra onde ir

Os meninos e as meninas

Entre ódios e branduras

Guerrilheiros de almas puras

Maltrapilhos, quase nus

Têm um coração que clama

Uma alma que reclama

São todos anjos da terra

Essas crianças de luz.

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, verão.

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
CARTA DE ALFORRIA

 

 

 

 

 

 

Eu não queria carregar os meus poemas,

com as minhas próprias mãos.

E levá-los como o faço,

tímida e constrangida,

ao encontro dos homens.

Queria que os meus poemas voassem

leves, soltos, libertos por aí.

E com suas próprias asas, atravessassem

o tempo, ganhassem o mundo.

Poemas atemporais que invadissem corações.

Por que será que os meus poemas,

cafusos, mamelucos, mulatos, caboclos,

dependem tanto assim de mim?

Será que esses meus poemas

ainda vivem nas senzalas?

Tristes poemas cativos!

Nem percebem que têm o destino dos pássaros.

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, inverno

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
POÉTICA

 

 

 

 

 

 

Poemar é ser abelha,

borboleta, passarinho.

De noite, dormir no ninho.

Madrugada, versejar.

De dia, voar, voar...

Aventurar-se aos auspícios.

Nem que tenha que fazer

o maldito cocozinho

na cabeça do Vinícius

 
   

Kátia Drummond
Salvador Bahia Brasil, Outono.

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
MATER DEI

 

 

 

Para André Bernard, meu filho de alma gitana

 

 

Você brotou. Em mim, nasceram luzes.

O breu do universo se desfez.

Eu, radiosa, iluminava tudo.

Como as estrelas, no meio da noite.

E como o sol, encandescendo o mundo.

Amei você pela primeira vez.

Seu coração ruidoso, no meu corpo,

pulsava em mim. Eu era a Mater Dei.

E ao te sentir o corpo, buliçoso,

fazer folia junto ao corpo meu,

lacrimejei meu riso venturoso.

Pela segunda vez, então, te amei.

Enquanto a tua vida me expandia,

algum mistério novo acontecia.

Até que em mim, o amor feriu-se em dor.

Entre a tormenta que em mim doía,

eu, transbordando dor e alegria,

senti meu sangue quente a escorrer.

E do meu sangue, vi você nascer.

Virei Nossa Senhora, a mãe do mundo.

E fiz do Deus Menino o filho meu.

Segui teus gestos, a cada segundo.

Mãe-de-leite zelosa, fartas mamas,

ao ver meu sangue transmutado em leite,

e ao ter você, bezerro, no meu peito,

senti dos Budas todos os nirvanas.

Vivi a plenitude do deleite.

O de ser vida. Ser o alimento.

Senti uma transformação maior por dentro.

Vi que era mais que a Mãe. Eu era Deus.

E foi então que fiz um juramento:

jamais deixar sofrer os filhos meus.

Do meu sangue, fiz teu alimento.

Do meu corpo, fiz teu cobertor.

Teci para você um belo ninho.

E como faz a ave ao seu filhinho,

abri-te as asas, dei-te o meu calor.

Segui teu tempo de crescer e de voar.

Sempre ao teu lado, como um animal,

cumprindo o meu instinto, visceral,

acompanhei-te a cada caminhar.

Vi você, pastor, tocando flauta.

Você, anjinho, tocando bandolim.

Adormeci ao som da tua gaita.

E a vida quis te separar de mim.

Percorri mundo, qual uma cigana.

Você, em mim, a viajar comigo.

E a saudade, banzo de quem ama,

tatuava em meu corpo o meu castigo.

Cravejava em meu peito essa desdita.

A incomensurável dor que não reclama.

Que faz de toda mãe uma alma aflita,

a tatuar, no peito, o próprio filho.

A transformá-lo em seu mote perpétuo.

Como se o filho, esse andarilho incerto,

houvesse de seguir seu velho trilho.

Acho que desertei. Saí de mim.

Cansei de padecer no desengano.

Só espero que minh’alma bucaneira,

a mesma alma que te fez gitano,

alcance te esperar a vida inteira.

Alcance te amar, vida após vida.

A cada dor. A cada despedida.

A cada ato do teatro humano.

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, outono.

 
     
 

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