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Especial Poético:
Kátia Drummond - Parte 01 |
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Pequenos, barrigudinhos Olhares tristes, mansinhos Sorrisos amarelados Perambulam nas esquinas Frágeis como passarinhos Os meninos e as meninas Filhos das filhas das ruas Donos dos bancos das praças Pés-de-vento, pés descalços Desamados, destemidos Perseguem-lhes os cães de raça. Vira-latas das esquinas Frágeis aves de rapina Armados de pedra e pau Os meninos e as meninas Pastores das alvoradas Atravessam madrugadas Sempre em estado de graça Adormecem ao relento Parecem donos do tempo Perseguem-lhes os cães de caça. Borboletas sob o sol Vaga-lumes sob a lua Sem presente e sem porvir Quebram cercas, pulam muros Sem saber pra onde ir Os meninos e as meninas Entre ódios e branduras Guerrilheiros de almas puras Maltrapilhos, quase nus Têm um coração que clama Uma alma que reclama São todos anjos da terra Essas crianças de luz. |
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Especial Poético:
Kátia Drummond - Parte 01 |
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Eu não queria carregar os meus poemas, com as minhas próprias mãos. E levá-los como o faço, tímida e constrangida, ao encontro dos homens. Queria que os meus poemas voassem leves, soltos, libertos por aí. E com suas próprias asas, atravessassem o tempo, ganhassem o mundo. Poemas atemporais que invadissem corações. Por que será que os meus poemas, cafusos, mamelucos, mulatos, caboclos, dependem tanto assim de mim? Será que esses meus poemas ainda vivem nas senzalas? Tristes poemas cativos! Nem percebem que têm o destino dos pássaros. |
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Kátia Drummond - Parte 01 |
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Poemar é ser abelha, borboleta, passarinho. De noite, dormir no ninho. Madrugada, versejar. De dia, voar, voar... Aventurar-se aos auspícios. Nem que tenha que fazer o maldito cocozinho na cabeça do Vinícius |
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Para André Bernard, meu filho de alma gitana |
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Você brotou. Em mim, nasceram luzes. O breu do universo se desfez. Eu, radiosa, iluminava tudo. Como as estrelas, no meio da noite. E como o sol, encandescendo o mundo. Amei você pela primeira vez. Seu coração ruidoso, no meu corpo, pulsava em mim. Eu era a Mater Dei. E ao te sentir o corpo, buliçoso, fazer folia junto ao corpo meu, lacrimejei meu riso venturoso. Pela segunda vez, então, te amei. Enquanto a tua vida me expandia, algum mistério novo acontecia. Até que em mim, o amor feriu-se em dor. Entre a tormenta que em mim doía, eu, transbordando dor e alegria, senti meu sangue quente a escorrer. E do meu sangue, vi você nascer. Virei Nossa Senhora, a mãe do mundo. E fiz do Deus Menino o filho meu. Segui teus gestos, a cada segundo. Mãe-de-leite zelosa, fartas mamas, ao ver meu sangue transmutado em leite, e ao ter você, bezerro, no meu peito, senti dos Budas todos os nirvanas. Vivi a plenitude do deleite. O de ser vida. Ser o alimento. Senti uma transformação maior por dentro. Vi que era mais que a Mãe. Eu era Deus. E foi então que fiz um juramento: jamais deixar sofrer os filhos meus. Do meu sangue, fiz teu alimento. Do meu corpo, fiz teu cobertor. Teci para você um belo ninho. E como faz a ave ao seu filhinho, abri-te as asas, dei-te o meu calor. Segui teu tempo de crescer e de voar. Sempre ao teu lado, como um animal, cumprindo o meu instinto, visceral, acompanhei-te a cada caminhar. Vi você, pastor, tocando flauta. Você, anjinho, tocando bandolim. Adormeci ao som da tua gaita. E a vida quis te separar de mim. Percorri mundo, qual uma cigana. Você, em mim, a viajar comigo. E a saudade, banzo de quem ama, tatuava em meu corpo o meu castigo. Cravejava em meu peito essa desdita. A incomensurável dor que não reclama. Que faz de toda mãe uma alma aflita, a tatuar, no peito, o próprio filho. A transformá-lo em seu mote perpétuo. Como se o filho, esse andarilho incerto, houvesse de seguir seu velho trilho. Acho que desertei. Saí de mim. Cansei de padecer no desengano. Só espero que minh’alma bucaneira, a mesma alma que te fez gitano, alcance te esperar a vida inteira. Alcance te amar, vida após vida. A cada dor. A cada despedida. A cada ato do teatro humano. |
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