Especial Poético:
Kátia Drummond - Parte 1

 

 

 

 

 

 

- LUCIDEZ PROFANA

- TERRA MATER

- SEMEADURA

- MINHA VIDA

- INSENSATO CORAÇÃO

- A MENINA

- MATER DEI

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
LUCIDEZ PROFANA

 

 

 

para os artistas

 

 

Deixe esse homem nascer em paz

pois esse homem traz na natureza

a essência de fluir toda a beleza

que os homens tolos nem percebem mais.

Deixe esse homem crescer em paz

pois esse homem traz na consciência

a lucidez profana da inocência

que a gente grande não conhece mais

Deixe esse homem viver em paz

pois esse homem traz nas mãos atadas

o mágico poder próprio das fadas

que os nossos filhos já não trazem mais.

Deixe esse homem morrer em paz

pois esse homem traz na luta e na conquista

a alma agonizante do artista

que a sua vida não agüenta mais.

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, outono.

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
TERRA MATER

 

 

 

 

 

 

Ai quem me dera ver-te verde e virgem,

oásis sobrevindo à fantasia.

Inalar-te o odor vindo das matas,

sugar-te o mel que ocultas nas entranhas,

saborear de ti o sumo adocicado dos teus frutos,

tocar de leve a tua tenra terra

e nela me acolher até dormir.

Sem sonhar, te ver tal qual tu és,

terna e úmida mulher.

Sem pensar, te ter absoluta e generosa mãe,

fértil concepção de muitos deuses.

E eu, noviça, apenas em ti

principiar de novo a vida.

O matiz da tua paisagem me delicia.

Aí, começamos a única

e derradeira viagem de luz.

Eu, tua aldeã, a invadir teu corpo,

eloqüente digo que te amo.

Docemente te afago com meus pés.

Tu me concedes a essência das essências.

Em mim jorras sublime o teu perfume,

enquanto me chegam, um a um,

sacis, iaras, curupiras, caiporas.

Elfos, duendes, gnomos.

Silfos, ondinas e salamandras.

As pedras que te cercam os rios, sorriem.

Encantada, te consagro a minha vida pagã.

Sem blasfêmia, beijo-te o chão.

E tu sorris toda só pra mim.

Dos jasmins, caem delícias sobre meus cabelos.

Os bichos-da-seda me acobertam o ventre.

A brisa fogosa me desvenda o sexo.

Tu me tens. Delícia das delícias!...

Se verdejante me exorcisas,

enquanto em mim perpetuas a espécie,

plácida aquieto-me, recebo-te

e etenizo inerte o teu amor.

De mim brotam o céu e a terra.

A água, o fogo, o ar.

Surgem vales e montanhas.

Lagos e rios.

Flores e frutos.

E quando de todos os instáveis

elementos nascem os homens,

pela primeira vez tu choras maculada e triste,

ao pressentir, então, a tua própria morte.

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, verão.

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
SEMEADURA

 

 

 

 

 

 

Quando tu chegastes aqui, todo floresta,

a sala ficou úmida e singela.

Suave era o cheiro de cipreste,

que eu nunca vira antes algo assim.

Brotavam flores de dentro de mim!

Cavalheiro, de onde tu viestes,

tu me trouxestes a bela estrela guia

que faz a noite parecer mais dia

e o dia florescer subitamente.

Não ouço mais gemidos, cantam arcanjos.

Parece que tu tens em ti um anjo

e que esse anjo ilumina a gente.

Angelical, tocastes meus cabelos.

E por instantes, todos os meus pêlos.

Enquanto tu chegavas, eu te queria.

Entre a flora e a fauna da floresta,

uma voz abençoada me dizia

que o éden eras tu e que eu devia

gozar contigo a virgem que me resta.

Eu nunca vi jamais tanta inocência,

que a minha pele rubra, qual carmim,

alguma coisa, é certo, te pedia.

Alguma coisa clara, manifesta.

E tu, brilhando estrelas sobre mim,

me davas o mistério indecifrável

da imaginação e da alquimia

de ser a fada azul da tua festa.

E quando tu te fostes, enfim, floresta,

lancei meus passos nus, incandescentes,

em busca do teu rastro, simplesmente.

Eu percebi que as trilhas se fechavam.

Maldisse a vida. Desejei a morte.

E vi que tu havias me deixado

a sorte de me abrir alguma fresta.

No afã daquela estrela que eu seguia,

compreendi, então, que a noite e o dia

são mais que luz e sombra. São magia!

E eu, essa pequena criatura,

desejei ser tua vã semeadura.

E quis, então, florar dentro de ti

a árvore da vida e da ventura!

 
   

Kátia Drummond
Salvador Bahia Brasil, Outono.

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
MINHA VIDA

 

 

 

Para Cláudio Paulo, meu companheiro

 

 

Minha vida

é o sol ardendo em chama

queimando o corpo e a alma

quando ama.

Minha vida

é o poço mais profundo

onde mergulha o pranto

desse mundo.

Minha vida

é uma ferida aberta

é como a carne viva

exposta à morte certa.

Minha vida

anda a pedir clemência

e muita paciência

pra viver em paz.

Minha vida

de tanta esperança

não é mais criança

envelheceu demais.

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, verão.

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
INSENSATO CORAÇÃO

 

 

 

 

 

 

Quisera ver o limite

dessa dor que se permite

tanto assim me maltratar.

Quisera ter seu tamanho,

para sem perda nem ganho,

simplesmente, suportar.

Coração, vê se agüenta!

Não desespera. A tormenta

qualquer hora vai passar.

Afinal sê como a lua

que abandonada e nua

põe o sol no seu lugar.

Se tudo no firmamento

tem o tempo do momento,

coração, pra que chorar?

Chega de tanta aflição.

Dorme um pouco, coração.

Vê se consegue sonhar!

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, verão.

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
A MENINA

 

 

 

 

 

 

Eu vi a menina

no meio do mato

olhar para um lado

olhar para o outro

tirar a calcinha

e sem-vergoinha

bem abaixadinha

fazer cocozinho.

Eu vi a menina

no meio do mato

olhar para um lado

olhar para o outro

pegar a folhinha

e assustadinha

bem engraçadinha

limpar a bundinha.

Eu vi a menina

no meio do mato

olhar para um lado olhar para o outro

vestir a calcinha

sorrir bonitinha

e apressadinha

sair por aí.

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, outono.

 
     
 

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Especial Poético: Kátia Drummond - Parte 01
MATER DEI

 

 

 

para minha doce mãe

 

 

Desde o momento em que eu lhe vi morrendo,

apercebi-me: estava lhe perdendo.

Olhei pro tempo, andei léguas pra trás.

A vida veio inteira em minha mente.

Um filme surrealista, tocha ardente,

como um vulcão, uma fera voraz.

Desejei ser a autora do destino.

Vi-me menina, como o Deus Menino,

nos braços da Senhora Mãe donzela.

Ou era uma criança na janela,

olhando os “mascarados” na avenida,

todos querendo se esconder da vida.

A vida, então, pra mim era um brinquedo,

eu não entendia porque tanto medo.

O mesmo medo que me assombra agora,

ao ver você saindo do seu corpo.

Espírito de luz num corpo morto,

querer ficar, mas tendo que ir embora.

A dor maior era lhe ver calada,

sangrando a vida em plena madrugada.

Vi-me sozinha. Não entendi mais nada.

E a morte veio como erva daninha,

matando tudo. E eu ali, parada.

Que gosto amargo, que cansaço imenso.

Você virando um anjo em minha frente.

Deixando de ser mãe e de ser gente,

agonizando no extertor final.

Que sensação sinistra, ver seu funeral!

Loucura, ver a terra lhe cobrindo,

e eu lhe pedindo pra não ir embora.

Rezando, mesmo sem saber rezar,

buscando alguma força pra me dar.

Vi Deus virar Diabo aquela hora!

A casa parecia um templo antigo,

mal assombrado, sem qualquer amigo.

Uma cena delirante, teatral.

E eu fui me dando conta, de repente,

que eu já não era eu, eu era alguém.

Sem pai, sem mãe, um animal sem vida.

Um cão lambendo a própria ferida.

Sentei no chão, chorei amargamente.

E desejei ser terra e ser semente.

Fazer você voltar, sobrevivente.

Você saiu de mim como uma ladra.

Silenciosa, cabisbaixa, errante.

E me deixou sozinha e desarmada,

como uma marginal principiante.

Você roubou meus últimos brinquedos.

Você levou todos os meus segredos.

O meu maiô de elástico vermelho.

O meu batom, o meu primeiro espelho.

A bicicleta, o álbum de retratos.

Meus quinze anos, meus sapatos altos.

Meus carnavais e minhas fantasias.

A minha serpentina, o meu confete.

O meu Colégio Santa Bernadete,

minhas colegas, minhas alegrias.

Levou minhas cigarras, meus oitis,

a minha Madragoa, os bem-te-vis,

levou minha Avenida Beira-Mar.

Levou Jauá, levou meus veraneios,

o barco de painho e meus passeios.

Levou meu São João, meu milho verde.

Meus doces sobre a mesa, meus natais.

O meu acordeon, o meu piano,

os meus concertos e os meus festivais.

Me diga mãe, o que é que eu faço agora,

se sem você eu já nem sonho mais?

Você me levou tudo mãe, até minh’alma!

Em que ternura eu vou buscar a calma?

Em que calor eu vou guardar meu frio,

se até meu coração ficou vazio?

Em qual abraço eu vou guardar meus medos,

se hoje estou em todos os degredos,

se fui deixada ao sabor do vento,

amargurando a cara do meu tempo,

mortificando a dor todo o momento?

Responda, mãe, de onde está agora.

Dê-me o sinal que eu lhe pedi outrora.

Se não existe nada além da morte,

entrego a minha vida à própria sorte.

Responda mãe, o que eu pedi um dia,

em nome da esperança que eu perdi,

em nome do poeta e da poesia.

Por cada ideal, cada utopia,

faça os meus versos ter algum sentido,

faça vibrar o eco universal.

Atenda mãe, meu último pedido.

Responda mãe, num gesto maternal.

Valeu ou não, um dia ter nascido?

Valeu ou não, um dia ter vivido?

A morte é o começo, o meio ou o final?

 
   

Kátia Drummond
Salvador BA, inverno.

 
     
 

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