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CAPÍTULO 3
No ano seguinte, o coração de Judas de Arimatéia parou.
Sem seu pai para lhe dizer o que fazer, José viu os negócios da família
afundarem. Passava mais tempo dormindo que acordado, ficava bêbado de vinho
todos os dias e não honrava seus compromissos financeiros. Tinha
dificuldades para pagar os fornecedores de tecido, fazendo com que os
tecelães procurassem outros comerciantes.
Sua mãe, Raquel, que sempre tentava lhe apoiar e incentivar, desde a morte
do marido, começara a ficar cega. Dois anos depois, sua visão já tinha quase
completamente sumido e ela chamou José para uma conversa séria.
- Meu filho, acredito que Deus se manifesta através de nossas mãos.
- Não entendo, mãe.
- O que será de você, quando eu estiver totalmente cega?
- Eu sobrevivo.
- E quanto a mim? Como vou sobreviver? Você vai cuidar de mim?
José de Arimatéia baixou a cabeça.
- Meu filho, por favor, pare de beber. Acorde cedo para trabalhar. Você está
me envergonhando.
- Não temos mais nada para vender e não posso comprar nada, pois estou
devendo dinheiro para vários tecelães.
- Eu sei. Faça o que digo. Vá a Jerusalém e fale com Paulo o Ferreiro. Ele
poderá lhe emprestar dinheiro para saudar suas dívidas e recomeçar o negócio
criado por seu pai.
- Ele é um grego?
- Sim. É meu primo.
- Nós somos gregos, mãe?
- Temos sangue grego, como muitos aqui. Mas isso não importa agora.
E José de Arimatéia partiu para Jerusalém. Ao entrar na cidade, viu uma
criança cair a sua frente, ao correr atrás de pintinhos. José foi ajudá-la,
lembrando-se de seu primeiro encontro com Jesus.
A criança não chorava, mas tinha uma ferida profunda em seu joelho direito,
como se atravessado por uma lança. José ficou horrorizado.
- José... - disse a criança, olhando para o céu. - A hora chegou.
José olhou para o céu também e quando baixou os olhos, a criança havia
corrido.
Perturbado com o fato, José foi ao encontro de Paulo o Ferreiro, pois agora
estava determinado a tomar vergonha na cara e começar a agir direito. Não
iria deixar a mãe cega na miséria.
José entrou na oficina de Paulo, que o recebeu com uma certa rudeza.
- O que quer?
- Sou filho de Raquel.
- Minha prima? Ah!
O grego ficou feliz em vê-lo e o convidou a lavar-se e tomar água.
- Minha mãe me disse que você poderia nos ajudar.
- Imediatamente. Quanto vocês precisam?
Com uma bolsa cheia de dinheiro, José de Arimatéia despediu-se de Paulo o
Ferreiro, mas quando ia saindo de sua oficina, viu uma confusão.
- Que está acontecendo? - perguntou.
- Estão crucificando um ladrão, eu acho. - respondeu Paulo.
E José ficou impressionado e curioso, pois nunca tinha visto uma
crucificação. Decidiu seguir a multidão.
A maioria xingava o homem ferido e cansado e algumas crianças até jogavam
pedras. Era escoltado por soldados romanos.
José chegou mais perto que pôde e ficou boquiaberto ao descobrir que o homem
que carregava a cruz era Jesus de Nazaré.
- O que foi que ele fez? - tentava perguntar às pessoas, mas ninguém sabia.
Até que um respondeu:
- Está criticando os judeus e nossa religião.
- Mas porque os romanos vão crucificá-lo?
- Parece que foi um pedido dos fariseus.
José de Arimatéia não estava entendendo nada.
Seguiu Jesus até que saíram da cidade e, no meio do deserto, o penduraram na
cruz.
Havia poucas pessoas ali. Uma velha estava sentada perto da cruz, chorando.
José aproximou-se e se sentou ao lado dela.
Nesse momento, Jesus abriu os olhos. Havia uma coroa de espinhos em sua
cabeça, que sangrava muito. José imaginou que se Jesus não morresse de
asfixia, morreria de hemorragia.
Lembrou-se que toda vez que se encontrava com Jesus, este dizia: "Nos
encontraremos". E aquela criancinha machucada disse: "Chegou a hora". Mas
qual o significado daquilo tudo?
Desta vez, Jesus nada falou. Apenas olhou José por alguns segundos e
desfaleceu.
José aproximou-se dos soldados que guardavam o crucificado e perguntou se
poderia enterrar Jesus.
- Não, ele deve ficar aí até ser comido pelos abutres.
De fato, vários voavam em círculos, no céu.
- Eu lhes dou isto. - disse José de Arimatéia, oferecendo dinheiro aos
soldados.
- Por que quer este homem? - perguntaram os soldados.
- Vou enterrá-lo dignamente.
Os soldados desdenharam, mas aceitando o dinheiro, mandaram José esperar
pelo anoitecer, pois não queriam ser acusados de suborno.
José foi à casa de um comerciante e comprou o melhor linho que encontrou,
para enrolar o corpo de Jesus. Também comprou uma urna funerária, mas não
conseguiu alugar um carro. Teve de comprar um, porém, o proprietário se
recusou a vender o boi. José teve de puxar o carro com seus próprios braços.
Com a ajuda da velha, que soube era a mãe de Jesus, despregou o cadáver,
enrolou-o no pano e colocou sobre o carro. Para evitar mais controvérsias,
resolveu enterrá-lo no deserto mesmo.
Com uma pedra, cavou um buraco, colocou o corpo de Jesus dentro da urna e o
depositou na cova. Cobriu com a areia e colocou uma grande pedra por cima.
- Vá para casa, minha senhora.
- Vou ficar aqui mais um pouco. Obrigado, bom homem. Qual o seu nome?
- José de Arimatéia.
- Era amigo de meu filho?
- Não. Isto é, sim. Na verdade, não sei.
E caminhou a esmo, tentando imaginar o que diria a sua mãe, pois havia gasto
quase todo o dinheiro emprestado por Paulo o Ferreiro.
Cansado, deitou-se sob uma árvore e dormiu.
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