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Se me perguntassem, há meia dúzia de meses atrás, se estaria nesta situação,
ter-me-ia rido a bom rir e jogado na face de outrem que era uma piada de
muito mau gosto.
É incrível como era tão jovem há pouco tempo atrás. Tinha vida, força,
sentia-me o maior. O maior, acreditam?
Invencível… imbatível… imortal!
Que vontade de sorrir, no meio das lágrimas. Imortal. Quão néscio era…
Ninguém é imortal. Até há quem diga que Deus está a morrer.
Deus…
Deus…
Onde estás?
Porque fugiste de mim?
Voltei a pensar em Deus, após tantos anos pensando que ninguém precisa de
Deus. Que me sentia ateu. Uma invenção de meia dúzia de fanáticos, pensava
na altura.
Deus não existe, gritava pujante em reuniões de café, junto ao cheiro do
tabaco misturado com a cafeína, bem apaladado.
E gritava bem alto, para todo o mundo ouvir: Deus é uma invenção!
E agora… meu Deus… que falta sinto de Ti!
Porque me abandonaste? Por aquilo que eu dizia?
Não é vontade de Deus perdoar? Não é um mandamento divino?
Porque não fui perdoado?
Aqui estou eu.
Sentado. A olhar para o Céu. Lá em baixo os carros passam, as pessoas
deambulam, quiçá de forma errante. Parecem formigas.
(Nunca entendi porque se fala em formigas ao referir pequenos seres. E as
moscas? Os mosquitos? Seres repugnantes? Talvez. Mas o ser humano não é
igualmente repugnante?)
Parecem formigas, insectos vulgares, desconhecendo que, tal como eu, não são
imortais. E que, tal como eu, podem dizer o que quiserem, mas vão perceber
que Deus existe. È real e não perdoa, ao contrário dos mandamentos sagrados.
Porque tanto bulício? Para onde as pessoas? O que querem? O que fazem?
Porque não param? Porque não param?
Grito: porque não param?
Ninguém me ouve. Estou demasiado longe, demasiado longe de tudo e de todos.
Esperem: estarei vivo?
Interrogo-me. Faço o tradicional truque de beliscar uma parte do corpo.
Dói-me. Não é sonho, nem sono da morte, estou vivo.
Mas estarei mesmo vivo? Isto é viver?
Aqui estou eu.
Vislumbro, em poucos instantes, toda a minha vida, todo o meu passado.
Afinal de contas, o que fiz? Nasci, cresci, estudei quase duas dezenas de
anos. Tirei um curso superior. (Parabéns, disseram-me todos os familiares
mais próximo. És um Senhor Doutor.) Namorei com três pessoas diferentes. Não
gostei de nenhuma. Gostei de uma outra pessoa, mas essa nunca quis gostar de
mim. Sim, nunca quis, foi falta de vontade mesmo. Pois podia muito bem ter
sentido amor por mim. Se eu sentia por essa pessoa, porque não era
retribuído?
Na verdade, o fruto proibido é mesmo o mais apetecido.
Sempre gostei de quem de mim não gostava.
Sempre quis ter aquilo que não podia.
Sempre quis fazer coisas para as quais não estava habilitado.
E agora também percebo que não sou imortal, o que acreditava piamente há tão
pouco tempo.
Aqui estou eu.
Nunca estava engripado. Fui ao médico meia dúzia de vezes ao longo da vida.
Raramente era vacinado. Para quê? Era forte que nem um touro. Rijo, atlético
e saudável. Imortal, talvez… Naquele dia apeteceu-me fazer uma análise
sanguínea. Curiosidade.
Podia ter diabetes, colesterol, algo do género. Não me importava, são
doenças comuns, que, bem cuidadas, não fazem muito mal, pensava eu na minha
ingenuidade.
Até achava engraçado poder dizer aos amigos: sabiam que tenho o colesterol
em alta? Logo ali arranjaríamos tema de conversa e oportunidade de brincar
um pouco com a vida. Para nós, que somos imortais, brincar com a doença é
normal e aceitável. É apenas um mero acidente de percurso numa viagem
interminável e imperturbável.
Pois… mas naquele dia os ventos não me correram de feição.
AIDS? Perguntei eu ao sujeito de bata branca na minha frente. Como?
Não tenho sintomas, sinto-me pronto a correr três vezes a maratona e ainda
jogar uma partida de futebol com os amigos.
AIDS? Está a brincar comigo, não?
Não… respondeu ele secamente.
Nesse dia deixei de ter vontade de brincar. Percebi que não era imortal.
Percebi que Deus existia – caso contrário eu teria a oportunidade de decidir
o meu próprio destino. Também percebi que a minha vida, ao contrário do que
eu sempre pensara, não estava nas minhas mãos.
Uma vez só… Uma única! Sem preservativo. Quais as probabilidades disso
acontecer? Uma em um bilião? Pois, acontece.
Aqui estou eu.
Lá em baixo o mundo prossegue o seu ritmo perfeitamente natural.
Ninguém parou para olhar para mim. Ninguém está preocupado se tenho mais um
minuto, um ano ou uma década de vida.
Sou perfeitamente insignificante. Não existo para ninguém. Por isso, mesmo
estando aqui, a trinta e tal andares do solo, no topo de um vulgar prédio,
de uma vulgar rua, de uma qualquer cidade, sou apenas eu e Deus, que me
olha, que me condena, que me faz pensar em tudo o que não fiz e devia ter
feito.
Não merecia isto… Ainda sou jovem. Trinta anos. Três décadas apenas.
Ainda nem comecei a viver realmente.
E agora, quanto tempo me restará? Um dia, um mês, um ano? O médico não quis
avançar com datas. Apenas falou que, com a medicação certa, cumprida de
forma rigorosa, posso estar muito bem durante muito tempo e que posso levar
uma vida quase normal.
Ah, e frisou, que o pior não é o vírus que tanto se teme, mas as
complicações por ele permitidas, como a entrada de outros vírus num sistema
enfraquecido. Tretas! Morremos de AIDS e nada mais.
Simplesmente morre-se.
E eu queria ser imortal. Juro que queria…e muito.
Passo os dias a pensar, desde aquela fatídica consulta médica, que eu não
irei morrer de AIDS: juro que não vou.
Não contei isto a ninguém, apenas em conversas com Deus. E Ele ri-se na
minha cara. Diz que ninguém é imortal e que essa doença não tem fuga
possível.
Será? Retribuo…
Aqui estou eu.
Finalmente todos vão perceber que sou imortal. E não o serei se essa for a
minha vontade. Vou contrariar o destino.
E vou mostrar a Deus que quem manda em mim sou eu.
Os meses passaram e nunca tive coragem de Lhe mostrar que sou imortal.
Por isso estou aqui, sentado a muitos metros do solo, a olhar lá para baixo.
Li certo dia que um suicídio era uma atitude cobarde. Na altura, eu defendia
a mesma teoria. É mais fácil matar-se do que enfrentar os problemas.
Agora, aqui, a olhar lá para baixo, percebo que a teoria estava totalmente
errada.
Acreditem que custa muito mais suicidarmo-nos. Mais fácil é deixar as coisas
acontecer, sem participar activamente em nada, ser um peão do destino.
Portanto, chegou a altura de mostrar quem manda em mim: eu!
Levanto-me. Olho para cima e digo: vês Deus, vês que sou eu que mando em
mim.
E sou imortal. Imortal, ouviste?
Olho para baixo.
O momento chegou. O mundo não parou de girar. As pessoas prosseguem as suas
tristes vidas a um ritmo normal, de sempre, como se não soubessem que eu sou
imortal.
Vou ser o primeiro a vencer a AIDS.
Estou de pé. Sinto o vento bater forte na minha face. Deus parece querer
empurrar-me para trás.
Não, nem pensar.
Eu sou imortal.
Dei um passo em frente.
Aqui estava eu. |
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