Conto:
O amor de Godofredo

 

 

 

De  Airo Zamoner

airo@cepede.com.br

 

       
  Caminhou rápido. Destino certo, Godofredo não tinha. Soltava palavras solitárias, sem interlocutor visível.

Crianças riam, disfarçando a boca. Jovens não seguravam o gesto clássico da loucura. Impassível, caminhou célere, discutindo temas obscuros. Gestos desinibidos se soltaram.

Brusca meia volta e retornou, caminhando ao longo da rua obstruída de pedestres equilibrados pelo imenso calçadão congestionado.

Cabelos embranquecidos, desalinhados. Suor na testa. Peito ofegante. Cabeça baixa, passos ritmados, ligeiros. Discussão interminável com o vazio aparente. Óculos pesados, mal postados, premendo o nariz avermelhado. Lábios secos, exaustos da útil fala inútil. Roupas em desalinho, gritando pressa na missão da descoberta.

Homens e mulheres ocupados debatiam favores, esbarrando cegos na tentativa inconsciente de arrancá-lo do caminho. Vendedores ansiosos gritavam produtos e milagres. Folhetos impostos em sua barriga flutuavam indiferença.

Novo retorno intempestivo e a caminhada, já não tão célere, refazia a mesma trilha invisível.
Agora as idéias caíam escorregadias, desconexas, avulsas, cansadas de se espremerem no pensamento em erupção cartesiana.

O cansaço inclinava o corpo. O peito projetava-se adiante das pernas. Os pés tropeçavam-se. A boca entreaberta, sangrava dúvidas pelo queixo abatido.

Ergueu a cabeça repentinamente. As mãos, enterrou-as nos bolsos vazios. A manta encardida escondeu o pescoço enrugado. Olhou a cidade. Encarou pessoas. Vasculhou fisionomias e expressões antigas, cadastradas nos reflexos de suas conjecturas.

Tirou as mãos dos bolsos e caminhou em ziguezague, abordando o próximo. Buscou a fisionomia familiar nas fichas perdidas de suas memórias confusas. Uma delas era seu foco. Segurou alguém pelo braço. O braço foi arrancado de suas mãos com violência pela irritação da abordagem. Seu corpo girou desgovernado.
Recompôs-se. As mãos apertaram as têmporas. Buscou explicações do engano. A caminhada se tornou instável.

As palavras estavam lá dentro, nítidas, coerentes com suas lembranças, com seu pensamento e se ajeitavam numa corrente absolutamente lógica na garganta, mas lá se embaralhavam, saiam solteiras, absurdas, amalucadas.

Finalmente a moça, veio em sua direção, destacando-se no burburinho. Não era mais um alguém qualquer. Era ela! Teve, finalmente a certeza de que era Francélia. Trôpego, tentou a caminhada reta em sua direção. Abriu os braços. Gesto de abraço. Gosto de abraço pela garganta. Ele entendeu. Ela iría explicar suas lembranças. Deslembranças. Ela sorria. Esperava seu abraço. A caminhada finalmente terminaria neste abraço. Avaliou o tempo gasto na procura! Avaliou o abandono do tempo no vazio de seu mundo de abandonos, na reescrita das faces perdidas!

Precisava livrar-se da ociosidade insistente, da solidão alucinante e caminhar pelas gentes. Gente que poderia ter a fisionomia de Francélia, a moça que estava esperando o seu abraço para reorganizar suas recordações. Seu olhar vermelho refletia Francélia sorrindo. Não! Ela não estava mais sorrindo. Ela estava rindo. Rindo muito! Estava feliz em reencontrá-lo! Tentou liberar as palavras gentis, perfiladas há tanto tempo nas galés obscuras de suas doces lembranças! Gritou. O grito pulou esganiçado, atrapalhado! Pigarreou em nova tentativa. Ele estava próximo. Muito próximo. A moça parou de rir! Largou a bolsa que ricochetou duas vezes no chão, parando de lado e derramando pela boca aberta, objetos sortidos, confidenciais. Godofredo olhou a bolsa e olhou Francélia. A moça levantou os braços! Ele se aproximou correndo, mas seu peito bateu forte nos punhos fechados, na ponta de braços esticados de proteção repentina. Caiu entontecido, confuso e a multidão o cercou em louca gritaria, imobilizando-o numa camisa de força de pernas, braços, palavras, lembranças.

 
     
 

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Airo Zamoner é escritor
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