Conto:
O inverno de Trajano

 

 

 

De  Airo Zamoner

airo@cepede.com.br

 

       
  O inverno ensaia os primeiros passos silenciosos, avançando idade adentro. As angústias igualam Trajano aos prisioneiros medievais. O que o salva, é a cara esborrachada na vidraça, tal qual criança inquieta a lamentar o aborto das brincadeiras, conformando-se, submisso, ao turismo do pensamento frustrado.
A clausura do envelhecido corpo que se agita atiça a alma, teimosa em acompanhar a decrepitude fatídica.

Nestes dias cinzentos, olhar o mundo é diversão enfadonha e o pensamento vagabundeia. Trajano vê um mundo repetitivo no sofrimento imposto há séculos ao povo submisso, sem remédio político inovador. Repetitivo no entesouramento descarado dos espertalhões eternos, incrustados na coroa real. Conformado, contenta-se com a agitação da memória. Rebusca lembranças no bafo artista que rabisca, sem parar, as incongruências desgastadas na vidraça impassível, divertindo-se na alternância entre promessas e mentiras.

Esperar que o sol rasgue as cortinas da umidade fria e permeie seus ossos porosos, antes que a escuridão definitiva apague todas as tochas, se transforma na atividade lúdica mais divertida. A natureza é bem humorada. É brincalhona. Faz o sol espiar enganador, atravessando a vidraça e apagando o bafo criativo para provocar o esgar que prenuncia o sorriso. Mas a espiada termina antes de nada e é possível ouvir, acima da massa de nuvens, o ecoar da gargalhada ingrata do inverno, impondo sua presença gelada para congelar as míseras lembranças de Trajano.

É nesse burburinho agitado da alma que o velho Trajano se mistura na criança que foi e, num repente inexplicável, o tempo rodopia inquieto no éter do pensamento. Coloca-o alhures, de cara amassada em outra vidraça, num outro inverno. Detido pela disciplina imposta, ele não era um prisioneiro medieval. Era sim, um cavaleiro heróico, florete em punho, pronto para todos os duelos. Os sonhos intactos se espraiavam sem limites pelo mundo desconhecido. Os pensamentos ansiosos precisavam se esticar no tempo. Tempo maldosamente preguiçoso em tirá-lo, de uma vez por todas, dos limites incômodos da primavera interminável.

Lutou combates imensos, desvencilhado da cela de estações enfadonhas e teve tantas vezes a sensação de vitória. Estava melhorando o mundo com sua espada abençoada, transformada a cada década em nova arma do bem. Nem precisava olhar para trás, tal a certeza ingênua da proficuidade óbvia do herói aplaudido. Bainha gasta pelo atrito paciente da espada. Alma realizada, provocando o sono tranqüilo. As ideologias, salpicando esperanças, povoavam o grafismo do vapor do inverno na vidraça malvada: tela prematura na produção de utopias.

Vez por outra, a vidraça se transforma em espelho. Reflete a cara infantil, depois adolescente e agora, no revolver da viagem do tempo, em cara envelhecida que superou todos os sonhos, enfiando para sempre a espada enferrujada na bainha em trapos.

Sem sol, nem calor externo, retornando da jornada extenuante, o vício da energia se impõe ao inverno que avança. Olha suas mãos vestidas de luva de couro antigo, prontas para desembainhar a espada reluzente. Dá três passos para trás e numa estocada certeira a vidraça se espatifa em mil fagulhas brilhantes. O inverno se encolhe assustado diante dos desenhos ameaçadores feitos no ar por sua lâmina arrojada. Trajano está de volta! Rebelde como sempre, planejando novos duelos que trarão a primavera definitiva.

Repentinamente, percebe que mesmo nestes dias cinzentos, olhar o mundo não é mais diversão enfadonha. A esperança colorida borra o cinza do inverno. Trajano sente que é possível estocar o sofrimento imposto há séculos ao povo que se subleva. Torna-se possível arrombar o entesouramento descarado dos espertalhões eternos, incrustados na coroa real. A agitação da memória rebusca lembranças no bafo artista, rabisca sem parar planos inéditos na vidraça quebrada.

 
     
 

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Airo Zamoner é escritor
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