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Conto: |
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Por Alan, o Miranda |
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Sonhou com ela a vida toda. Sempre o mesmo
sonho. Era linda, linda, linda, linda... Uma voz suave e melódica. Ela se
deixava mirar por muito tempo e retribuía da mesma forma. Era estranho saber
de uma pessoa que não se conhece. Que não se sabe nem se existe.
- Onde está você? Acordava louco. Ela tinha que existir. Não podia ser que algo tão incrível fosse de sua cabeça. Todos já a conheciam de tanto falar dela. Perguntavam como ela estava, se brigavam, se estavam bem. Ele não se guardava para ela, era realista e preferia não arriscar. Ela entendia. Nem se preocupava. Mas as namoradas sentiam ciúmes e até terminavam por causa disso. Começou a andar pela tarde, ao acaso, procurando-a. - Hoje sai te
procurando de novo. E tome-lhe beijo. Como não amar alguém assim? Faziam de tudo juntos. passeios, sexo, política, de tudo entrava naquelas noites. Que eram poucas, na verdade. Mas longas. A contabilidade era de uns 7 sonhos por ano... - Decidi. Só falo
com você agora “Lá”. Acertaram-se e se despediram. Ele ficou à espreita, investigando a tudo e a todos para encontrá-la. E, realmente, parou de sonhar... Passaram-se anos. Sentiu-se cada vez mais só. Definitivamente só. Alguns ainda perguntavam por ela. Agora ele sabia... Era apenas sonho. No entanto, sempre pensava nela. A saudade aumentou no decorrer dos anos. Começou mesmo a doer. Resolveu fazer terapia. Disseram que era a mãe dele idealizada. Mas a mãe dele não era tão gostosa, e não tinha aqueles olhos. Não a tirava do pensamento, porém não mais a procurava. Um tarde dessas como outra qualquer, indo para casa, resolveu levantar os olhos pelo menos mais uma vezinha só para cumprir currículo e dar uma vasculhada entre as pessoas. Estava em uma praça. Viu uma garota. Em um banco. Sozinha. Só que... Muito alta. No sonho ela era do mesmo tamanho dele. E o cabelo... Lá nas bandas do onírico eram grandes, até a cintura. Estes de cá era pequenos, em corte masculino. Mas ela olhava pra ele. Passou em frente ao banco, olhando. Ela também. Olhou para trás. Ela também. Voltou. Ficou de pé. Ela sentada. Não era linda, linda, linda... Bonitinha... Ele começou: - Oi... Não era mesma voz. O Tom era diferente. E não se deixava mirar muito tempo. Dividia os olhos entre ele e a paisagem, educadamente. Silêncio. Ambos se estudando. Sérios. Ela: - E aí? Me
conhece? Calaram-se um tempo. Ela de novo: - Pelo jeito você
gostava mesmo dela... Silêncio. Ele não sabia mais o que falar. Resolveu se despedir. - Bem... Até,
então... Risos de ambos. - Certo, está desculpada, está desculpada... Ele saiu se preparando para se mal-dizer. Ela falou ainda do banco: - Eu também sonhava com alguém. Só que você é menor que ele, não é a mesma voz e o cabelo era mais liso... Ele parou. Olhou para trás. Ficou um tempinho assim. Foi voltando devagar. Parou. Andou de novo e sentou ao lado dela. Olharam-se. E começaram a rir... |
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Alan, O Miranda - É ator e professor de teatro, além de ser estudante de Artes Cênicas na UFBA. Atualmente integra a comédia “Donzelos Anônimos”, com direção de Fernando Marinho e o espetáculo “Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia”, com direção de Fernando Guerreiro. |
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Alan, O Miranda |
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