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Conto: |
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Por Pedro Vieira |
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É impressionante como as coisas são
previsíveis. Quem podia imaginar que o inferno seria exatamente do jeito que
pinta a cartilha? Fogo, rios de lava, enxofre e as lamúrias dos condenados,
toda essa baboseira. Mas hoje, além dos gritos dos suplicantes, outro ruído
se ouvia nas profundezas do inferno: o rolar de dados. Quando tinha um tempo livre (o que acontecia de vez em quando), o Diabo reunia algumas almas condenadas ilustres para uma tarde jogando RPG. Ele era o mestre, claro, afinal era o Diabo e podia ser quem quisesse. Além do mais já estava fornecendo o lugar, os salgados e os refrigerantes também. Lúcifer, confortavelmente instalado no seu trono na cabeceira da mesa, se encontrava tão compenetrado que mal ouvia os apelos dos recém chegados aos seus domínios, o que geralmente era um de seus passatempos prediletos. Até o Diabo tinha suas prioridades, e no momento toda essa concentração era empregada em revisar as notas da última aventura. Ele tinha certeza que Hitler não viria. O alemãozinho era muito orgulhoso e saiu enraivecido da última sessão de jogo, depois que seu personagem foi currado por uma tribo inteira de pigmeus africanos. E Stalin também não viria, mas por que não seria convidado! O velhote era chato ao extremo, decorava todas as regras do jogo e tentava distorcê-las e manipulá-las em seu favor! Porra, o cara queria manipular o jogo com o Diabo mestrando? Havia uma cadeira cativa para o Saddam, claro. Mas provavelmente ele não chegaria a tempo para essa sessão, talvez na próxima. O Marquês de Sade chegou primeiro. Esses sodomitas eram pontuais, Oscar Wilde costumava chegar até adiantado (embora ele tivesse suspeitas que fosse só para pegar a cadeira ao lado de Átila). Logo depois chegaria Francisco Pizarro. O hermano sempre vinha fardado para a guerra, talvez tentando manter alguma imagem. Ele deixou o elmo em cima da mesa, cumprimentou a todos e se sentou. Por último chegou a Condessa Elizabeth Bathory, sempre muito cheia de si, com um de seus vestidos negros esvoaçantes. Bom, era a única mulher que topava participar por espontânea vontade, assim ela achava que isso lhe daria alguma vantagem. Rá, Rá. - Comecemos logo, ó Lorde do Submundo das Profundezas Negras? - Ah, e ela sempre o tratava pelos títulos mais inspirados. Parecia que isso a excitava. Por que não só chamá-lo Lúcifer? E “submundo das profundezas” não é um pleonasmo horroroso? - Estamos esperando o nosso novo jogador. Ah, aí vem ele! - Disse o Diabo, empolgado. As gigantescas portas do palácio se abriram e entrou um negrinho magrelo de uns 1.70 m de altura, cabelo raspado e oxigenado, óculos escuros, uma camiseta de uma torcida organizada de um popular time de futebol carioca, bermuda laranja e tênis nike. O rapaz não devia ter mais de 20 e poucos anos. Entrou examinando tudo, cheio de marra. - Companheiros, esse é Docinho – Lúcifer apresentou. - Qualé, galera! Tu é o cramunhão? – arrematou Docinho, do outro lado da sala, enquanto se aproximava. - Eu mesmo. – O Diabo disse, estufando o peito escamoso. - Caralho, bróder! O cramunhão mermo! Aí, te considero muito chefia! – exclamou Docinho, indo cumprimentá-lo. - Poderíamos ser inteirados de quem é esse indivíduo? Creio que nunca ouvimos falar de seu nome. - Disse o Marquês, educadamente. - Que foi, rapá? Tu não me conhece, bacana? Eu sou o Docinho! Eu comando a parada lá no Pavão/Pavãozinho, em Copacabana, sacô? Não é pouca merda não! – respondeu o negrinho, tirando os óculos escuros e encarando o Marquês na cara. - Alguien pode traducir esso? – Indagou Francisco Pizarro, coçando a vasta barba. O Diabo interrompeu: - Basta saber que ele tem um curriculum invejável. Vocês nem iam acreditar. - Cu-o-que? Ta me estranhando, sangue bom? A gente vai jogar essa parada ou vocês vão ficar zoando com o meu cú? – rebateu Docinho, enfezado. Finalmente sentaram-se todos e o Diabo distribuiu os personagens. Docinho não tinha entendido nada direito, ele só sabia que o bonequinho de chumbo que era ele tinha um machado. E ele gostava de machados. Mas mesmo assim tudo aquilo era muito suspeito. O tal do Marquês se vestia que nem boiola e falava palavras complicadas. O argentino safado (estava falando espanhol, devia ser argentino, e ainda estava fantasiado para o carnaval) nem lhe dirigia a palavra. E ainda tinha aquela Condessa que olhava esquisito pra ele. E era exatamente o tipo de mulher que ele odiaria: muito branca, magrela, e ainda com vestido de bruxa de teatro infantil. - Bom – O Diabo finalmente começou o jogo – vocês acabaram de chegar na pacífica aldeia de pigmeus criadores de avestruzes, Nabunda. E estão reunidos com o grande chefe Nolombo. - Ei, ninguém vai me explicar que porra a gente tá fazendo numa aldeia de pigmeus? – perguntou Docinho, confuso. - Temos que encontrar pistas da Princesa que foi raptada pelo Mago Maligno. – resumiu a Condessa. - Porra, caralho? Eu venho pros quintos dos infernos pra jogar uma porra dum jogo de princesa? – gritou Docinho – cadê as apostas, o dinheiro? - Calma Docinho, esse não é o espírito do jogo. Preste atenção na estória – explicou o Diabo, paciente. Docinho se resignou a esperar enquanto o Marquês, que era um “ladrão” (embora aquele cara não roubasse nem doce de criança), tratava com o líder Nolombo. - “Ó excelso líder dos Nabunda, necessitamos que o senhor seja magnânimo, do alto de sua sabedoria, e nos forneça a vital informação que vai possibilitar a execução de nossa nobre empreitada.” – o Marquês, representando o seu personagem, repetia a mesma ladainha umas quinhentas vezes. Docinho já estava ficando nervoso com o jeito que a Condessa o olhava e resolveu se intrometer: - Porra seu velho viado, como você quer tirar alguma informação do maluco assim? - Eu, ah... ? – gaguejou o Marquês. - É o seguinte. Eu bato com o meu machado na mesa e grito: “porra caralho, tu não vai soltar essa língua não? Se tu não dedar geral eu arranco essa língua com a porra dum alicate! O que vai ser?” – Docinho socou a mesa, realmente se empolgando na representação do seu personagem. A Condessa soltou um gemido baixinho. O Diabo rolou os dados: - O chefe Nolombo olha pra você e com medo da sua demonstração ameaçadora resolve lhes contar tudo: “O Maligno levou a Princesa para o Monte do Dragão.” - Dragão? Pensei que o Inferno ia ser mais divertido. – resmungou Docinho. - “Oh, enfrentaremos a maior de todas as bestas! O que opinas disso, tu que és mais experiente no assunto, Sir Pizarro?” – Disse o Marquês, representando seu ladrão, para Pizarro, que jogava com o cavaleiro. - “Yo creo que será complicado, compañero...” – Respondia Pizarro. Enquanto os dois faziam o seu roleplay, Docinho atacou os salgados. Não havia guaraná, somente Coca-Cola, e quando Docinho reclamou o Diabo se desculpou dizendo que não dava dinheiro para a concorrência. Os salgados estavam tostados demais. De repente ele sentiu algo estranho embaixo da mesa. Podia ser uma cobra ou um tatu com tentáculos, afinal estavam no Inferno. Mas era a Condessa esquisita alisando ele com o pé! Porra, que enrascada! Ele não ia comer aquela baranga maluca nem se estivesse muito no brilho. Em defesa, recuou as pernas e tentou se concentrar nos salgadinhos torrados. Quando Docinho percebeu já tinham chegado no Dragão. Essa parte foi divertida. Ele jogava os dados e o Diabo dizia que ele tinha retalhado alguma parte do bicho. Docinho gostava de retalhar. Ao fim da batalha, chegaram ao covil do Mago Maligno. Docinho arrombou a porta com o seu machado (estava começando a gostar do jogo). O mago e a Princesa estavam lá dentro. - “Tremei Maligno! O resgate está aqui!” – bradou o Marquês. - “Adelante hermanos!” – completou Pizarro. - Qualé, mermão! Entrega a gata ou a chapa vai esquentar pra ti, sacô? – ameaçou Docinho. - Eu preparo um feitiço – disse a Condessa, sem tirar os olhos de Docinho, – um feitiço bem quente... - “Esperem! Antes de qualquer coisa, a Princesa tem algo a dizer.” – Disse o Diabo, representando o Maligno. - “Sim eu tenho!” – gritou o Diabo, fazendo voz fina para representar a Princesa (Docinho mal esperava pra contar pra geral do morro que o Diabo era fanta uva). Ele continuou: - “Eu estou apaixonada pelo Maligno e vamos nos casar e viveremos felizes para sempre! Vocês não podem me tirar daqui!” Todos se calaram, surpresos. O Marquês ia abrir a boca, para tentar convencer a Princesa a abandonar a idéia insana. Mas Docinho foi mais rápido. - Caralho agora lombrô, maldita traidora xisnove! Sabe de uma coisa? Sabe o que eu vou fazer contigo? A expectativa pairou no ar por um instante tenso. Docinho completou: - Eu ponho pra fora e dou uma surra de pau mole nessa cachorra filha de uma puta! Nesse instante, a Condessa gozou (o que foi notado facilmente pelos altos gemidos). Lúcifer não soube o que dizer. Docinho era um jogador eloqüente, mas não tinha se encaixado muito bem. - Eu me abstenho de continuar jogando com essa criatura! – Disse o Marquês, enojado. - Él no sabe se portar en el juego. Adolph no seria peor! – Declarou Pizarro (A Condessa não estava em condições de opinar nada.) O Diabo olhou pra Docinho. Ele gostava da energia do garoto, mas parecia ser unânime que ninguém tinha apreciado a sua presença. - Porra, chefia? Tu vai me mandar embora por cause desses fudidos? Um velho com cara de tarado, um argentino péla saco, e uma maluca com falta de piroca? - Berrou Docinho, indignado. (O que provocou mais uma série de gemidos por parte da Condessa.) - Pessoal, o RPG é para confraternizarmos! Não vamos brigar! – Apelou o Diabo, sem muita convicção de que conseguiria resolver a situação. - Eu me retiro – Disse o Marquês. - Yo también. Tengo unos peruanos para molestar. – Finalizou Pizarro com um olhar desdenhoso. Pôs o elmo e virou as costas. - E restamos somente nós dois – falou o Diabo, balançando a cabeça, desapontado. Sua cauda entre as pernas era um sinal do quão chateado ele estava. - Que bom! – avaliou Docinho – Eu tava afim mesmo de te dar uns toques. Saca só, eu tô de olho, chefia! As coisas aqui no teu pedaço andam meio devagar. A parada lá na minha área era à vera, sacô? Senta aí, bróder, que eu vou te dar uns conselhos... |
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Pedro Vieira, 25 anos, morador do Rio de Janeiro estudante de designer... e só :) O conto que envio era originalmente um roteiro para uma história em quadrinhos que nunca foi desenhada... |
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Pedro Vieira |
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