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VIVA VOZ |
Por Henry Galsky henrygalsky@ligazine.com.br |
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| O APARTAMENTO | ||
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A casa em que vivera estava vazia. Por mais que tentasse, não conseguia se reencontrar naquelas paredes brancas, sem quadro ou fotografia que sustentavam o antigo apartamento na zona norte. Nada era como antes e aquela visita que num sobressalto resolvera fazer já lhe causava arrependimento. Os dias haviam se passado e se transformaram em meses e anos. Naquele dia exato, completava-se uma década de ausência. Por mais que tentasse, sabia que seria inútil buscar respostas a suas questões a partir de uma simples efeméride. Lembrava-se daquele dia em que pegou as malas com as roupas amarrotadas e foi embora. Na época, a atitude foi considerada uma grande ruptura. Nem tanto pelos outros, mas por ele mesmo. Desde criança tinha apego aos objetos. Não um apego material bobo, mas um sentimento de que eles também tinham sentimentos, emoções. Sua maior dificuldade era se livrar de coisas que já não serviam, mesmo que ocupassem espaço. Com a casa foi diferente. Afinal, não podia jogar o apartamento no lixo, até porque não queria. Por isso, jogou-se no mundo. Assim, quando passou pelo prédio em que viveu por quase 30 anos, não resistiu. Perguntou ao porteiro sobre o apartamento. Não era mais o mesmo porteiro e por isso não houve emoção, felizmente. Com ele soube que o apartamento estava para ser alugado, apesar de não haver interessados naquele momento e marcou a visita para a semana seguinte. Aquele dia, finalmente. O bilhete com seu nome e telefone estava agora em cima da mesa de madeira. Não passava de um estranho para o imóvel. Um estranho que o visitava e que iria se despedir. A falsa sensação de segurança que o apartamento provocava causava-lhe um enorme vazio. Conhecia cada canto do imóvel e tentava se lembrar de sua trajetória de vida após dez anos em que os dois estavam separados. Não tinha filhos, nem mulher. Nas costas a vida lhe impôs um casamento desfeito e algumas mágoas. Era interessante notar que vivia na efeméride daquele dia uma situação muito parecida à de quando deixou sua família primordial: os pais, os avós e o velho apartamento. As semelhanças não paravam por aí. Quando saíra de casa mais jovem carregava a dúvida ansiosa daqueles que esperam muito da vida. Hoje também tinha dúvidas, mas conformara-se com a praticidade desconfortável das contas de luz, telefone e aluguel. A família desmanchou-se aos poucos. A vida lhe tirara cada um de seus parentes até que não sobrara nenhum. Era natural, mas nem por isso menos doloroso. É assim com todo mundo. Nascemos repletos de familiares apenas com o intuito de ter boas lembranças. O ciclo deveria se repetir, mas, por obra do destino, não se estabilizara com ninguém. Apesar de tudo, estava conformado. Carregava no coração a certeza de que havia gente em pior situação. Ao menos tinha um trabalho que, se não o satisfazia, pelo menos o sustentava. É verdade que sempre quis ter família. Para ele era mais que um desejo; tratava-se mesmo de uma obrigação. Um senso de justiça que o seguia. Queria ter filhos para acompanhá-los de perto e não à distância, como um mero observador sem influência. Também conformara-se com o que o destino havia lhe reservado até aquele momento. Ao contrário da maioria, não alimentava dentro de si esperança nenhuma, já que gostava mesmo é de surpresas. Se possível, boas surpresas. Assim, com este raciocínio pouco ambicioso, aprendera a lidar com suas "não-frustrações". Sim, porque só é frustrado aquele que espera alguma coisa da vida ou das outras pessoas. Quem nada espera, de nada pode reclamar. E assim foi vivendo e trilhando um caminho com poucas decepções. Ou pelo menos era o que pensava, já que a falta de esperança não era algo natural, de forma alguma. Funcionava como uma doutrina política ou uma dieta. Policiava-se o tempo todo para pensar daquela forma. Quando queria muito alguma coisa, logo analisava friamente os dados e calculava a probabilidade de alcançá-la. Se chegava à conclusão de que as possibilidades de conseguir eram pequenas, preferia pensar que era assim mesmo que a vida funcionava e que deveria aceitar o mecanismo do destino Por isso, sentia-se aflito naquele apartamento, já que aquele era o cenário onde vivera sua ascensão e queda. Lembrava-se de que um dia fora um menino cheio de planos e entusiasmo e sentiu que, como numa sessão de hipnose, talvez pudesse mudar sua trajetória caso tivesse os elementos necessários. Mas, como de hábito, logo desistiu da idéia. Decidiu ir embora o quanto antes. Talvez o cheiro de madeira e o mofo do tapete tivessem lhe feito mal. Já se encaminhava para trancar a porta quando notou um pedaço de papel no chão. Abaixou-se e percebeu que não era um papel qualquer, mas um velho e surrado retrato dele mesmo. Lembrava-se daquela fotografia. Era o seu primeiro dia de aula na escola e ele devia ter no máximo uns quatro anos de idade. Aquilo lhe provocara uma estranha sensação de propriedade. Sentia que, de alguma maneira, aquele lugar ainda era seu e um sopro de otimismo varreu-lhe o coração. Depois de muito tempo, sua racionalidade cotidiana dava lugar à certeza moral de que podia recomeçar do zero naquele mesmo lugar. Desceu correndo as escadas e, entre confuso e ansioso, só pensou numa frase para dizer ao porteiro: "vou alugar o 304". |
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Henry Galsky Henry Galsky é jornalista, carioca e um apaixonado pelos livros e pelas Relações Internacionais. Atualmente, trabalha no canal a cabo GNT / Globosat. Gosta de discutir, mas só se arrisca a opinar quando acha que tem um certo conhecimento sobre o assunto em questão. Também cursa pós-graduação em Estratégias de Negociações Internacionais, na Universidade Candido Mendes. Seu objetivo profissional é trabalhar com Jornalismo Internacional. Envie seus comentários: henrygalsky@ligazine.com.br |
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