Coluna:

 

 

VIVA VOZ

Por Henry Galsky
henrygalsky@ligazine.com.br
     
  LIÇÕES DE UM DOMINGO DE FUTEBOL  
     
 

Tenho por hábito valorizar quando atividades novas e diferentes surpreendem meu cotidiano. Assim, valorizei quando há pouco mais de duas semanas descobri uma alergia a insetos. Está certo que não há nada de positivo nisso, exceto pelo fato de saber que devo procurar um alergista e tentar me curar deste problema, se quiser continuar a freqüentar qualquer lugar verde. Nas novas experiências - mesmo nas negativas - conseguimos descobrir nossos limites e expectativas e assim traçar objetivos mais claros.

Posso dizer que, graças aos acontecimentos deste último final de semana, percebi que posso ser um observador frio, mesmo em locais abarrotados de emoção. Sou um profundo amante do futebol e vou ao estádio do Maracanã sempre que posso. Por exemplo, durante este início de ano, fui a todos os jogos que o Flamengo disputou no estádio pela Taça Guanabara (para os pouco familiarizados com o campeonato do Rio de Janeiro, este é o nome dado ao primeiro turno da competição). Como se sabe, o momento do meu time não é dos melhores. Para ser totalmente franco, pode-se classificar a atual fase rubro-negra como a pior de sua história repleta de glórias.

O fato é que o último domingo foi mais um dia de Maracanã. Mas sem o Flamengo, infelizmente. Houve uma rodada-dupla - jogos seguidos no mesmo local - com Botafogo e Americano e, em seguida, Volta Redonda e Cabofriense. Sem nada para fazer, respondi positivamente ao convite do amigo botafoguense Maze para ir ao estádio. Seria a minha primeira vez no Maracanã sem o Flamengo em campo.

Como nada tenho contra o Botafogo, decidi ser solidário ao time de General Severiano. Chegamos à arquibancada. O estádio estava lotado por mais de 70 mil pessoas. E lá estava eu, rubro-negro convicto, atuante e apaixonado, no meio da torcida do Botafogo, que cantava sem parar tentando incentivar sua esforçada equipe. Meu silêncio no meio da multidão deve ter despertado a desconfiança do torcedor da frente, já que, após o árbitro não marcar uma falta clara no jogador alvinegro, ele virou-se para mim e disparou: "não é possível. Esse juíz f.d.p só pode ser flamenguista". Não respondi.

Fim do primeiro tempo. O Americano já vencia por um a zero quando alguém da torcida do Botafogo notou a presença da governadora Rosinha Matheus num camarote localizado pouco acima da arquibancada. Como a família da governadora e de seu marido - ex-futuro-governador - é de Campos, por sua vez a cidade da onde vem o Americano, a reação democrática e espontânea da torcida só poderia ser uma: hostilizá-la com palavras que não cabem nesta página.

No segundo tempo pouca coisa mudou. O Botafogo continuou a atacar desordenadamente mas foi recompensado com um pênalti sofrido por Ricardinho. Gol. Mas a alegria durou pouco. Logo depois, num contra-ataque rápido, o time de Campos desempatou e chegou à histórica final. Fiquei para ver o segundo jogo. Aliás, um grande jogo. Pela primeira vez, quase pude deitar nas arquibancadas do estádio. A torcida do Botafogo foi embora com o sentimento de que aquela tarde poderia ter tido um merecido final feliz para um dos grandes da capital. Mas de capital neste campeonato, por enquanto, apenas o nome do café patrocinador do Volta Redonda que, jogando bem, também chegou à final da Taça Guanabara.

Posso dizer que aprendi muito na tarde de domingo. Aprendi a reconhecer meus reais sentimentos. Percebi que o Flamengo é algo imensurável em minha vida. No Maracanã lotado sem o Flamengo me senti um profeta que aguarda grandes acontecimentos. Um profeta que se sente sozinho no meio da multidão à espera de que o destino cumpra acontecimentos que lhe foram confidenciados. E na tarde ensolarada de domingo, ao olhar para o túnel que dá acesso ao gramado, eu só tinha um único desejo: que onze camisas rubro-negras saíssem do vestiário, subissem correndo as escadas rumo ao campo, as arquibancadas explodissem em vermelho e preto e o estádio gritasse numa só voz: Mengo!

 
     
 

 

 
 

Henry Galsky
Jornalista, pós-graduando em Estratégias de Negociações Internacionais
 na Universidade Candido Mendes

Henry Galsky é jornalista, carioca e um apaixonado pelos livros e pelas Relações Internacionais. Atualmente, trabalha no canal a cabo GNT / Globosat. Gosta de discutir, mas só se arrisca a opinar quando acha que tem um certo conhecimento sobre o assunto em questão. Também cursa pós-graduação em Estratégias de Negociações Internacionais, na Universidade Candido Mendes. Seu objetivo profissional é trabalhar com Jornalismo Internacional.

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