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VISUALIDADES |
Por Almandrade www.expoart.com.br/almandrade |
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| SÃO FRANCISCO NO OLHAR DO ARTISTA | ||
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Uma exposição sobre São Francisco (1182 – 1226), religioso italiano canonizado pelo papa Gregório IX em 1228 é um bom pretexto para se falar de um tema caro aos teóricos da arte: arte e religião. Objeto da pintura de respeitados artistas que sustentam a história da arte como: Giotto, El Greco, Francisco de Zurbaran, Botticelli, Jan Van Eyck, Giovanni Bellini, Piero Della Francesca, Caravaggio, entre outros, São Francisco no museu é mais que um santo, é um ícone da história da arte. Da igreja para o museu, esta mudança de lugar tem conseqüências estéticas. Quem entra em um museu para ver uma exposição e se deixa seduzir pelas metáforas dos seus objetos, é motivado a ver o que a imagem não mostra no primeiro olhar ou é convidado a ver com os olhos obsessivos da imaginação. A arte tem a sua magia assim como os santos têm a sua. Nas palavras do filósofo alemão Theodor W. Adorno: “Toda obra de arte conserva o selo de uma origem mágica. Até podemos conceber que, se o elemento mágico fosse dela extirpado completamente, o declínio da própria obra de arte teria sido concretizado”. Desde o seu aparecimento nas grutas primitivas até o final do século XIX, a arte tinha vínculos estreitos com a religião. A linguagem visual foi uma das primeiras formas de expressão humana. O homem pré-histórico se destacou do restante do mundo animal quando pintou as paredes da caverna, como as de Altamira (Espanha) e Lascaux (França). Ele sublima na arte a violência animal. Toma consciência da morte e descobre o trabalho, o sagrado e o erótico. O homem é um animal que trabalha e faz sacrifícios (ritos) muitas vezes cruéis, inventa mitos para recuperar sua “intimidade perdida”, dar continuidade e explicar a sua existência. Durante a idade média, Deus era visto como o centro do universo, a igreja católica exercia forte controle sobre a produção científica e cultural. A cultura medieval estava ligada ao catolicismo, os temas religiosos predominavam nas artes plásticas, na literatura, na música e no teatro, obras na sua maioria anônimas e coletivas. A igreja determinava a produção artística, esculturas e pinturas eram utilizadas na decoração dos templos que exaltavam Deus e os santos católicos. A arte tinha pouca relação com o que estava acontecendo na terra, retratava o céu e o sagrado. O homem, submetido à onipresença da igreja, temia a Deus. O pensamento medieval dominado pela religião foi substituído por uma cultura que glorifica o homem e o racionalismo, na transição para o Renascimento, durante a baixa Idade Média e início da Idade Moderna, mas mantendo os temas religiosos. A pintura incorporou o naturalismo com base nos conhecimentos de perspectiva e anatomia, como os murais sacros do italiano Giotto, no começo do Renascimento, possivelmente o primeiro artista a assinar uma obra de arte e a inventar um estilo pessoal. A partir do século XIV, o homem começou a perceber sua importância e sua atuação no mundo. Os artistas do Renascimento se inspiraram no legado clássico grego, na busca das dimensões humanas ideais e a representação fiel da realidade. Um conceito de verdade foi inserido à beleza. A história do cristianismo começou a ser contada do ponto de vista humano. Somente no final do século XIX e início do século XX, a arte deixou de lado o sentido religioso, quando surgiu a modernidade. Até então a religião servia de mediadora entre o desejo e a lei. Com a descoberta do inconsciente pelo Dr. Freud, surgiu uma nova verdade do sujeito não mais apreendida pela anatomia e a perspectiva dos renascentistas. O artista deixou de ser o espectador ideal do mundo e se misturou a ele, reivindicando sua particularidade de sujeito, um fundamento da arte moderna. A pintura não é mais uma janela para a paisagem, o pintor moderno passou a pintar o real situando-se dentro dele, desprezou a perspectiva para chegar mais perto das coisas. Mas os temas religiosos sobreviveram na Modernidade. Voltando a exposição sobre São Francisco de Assis e a Tradição do Presépio, organizada pela museóloga Sylvia Athayde para a reabertura do Museu de Arte da Bahia, no mês do natal, percebe-se que São Francisco continuou presente no imaginário do artista até o século XX, não apenas no velho mundo, mas também em cidades como Salvador. A criação do presépio, uma reconstituição do nascimento do menino Jesus, é atribuída a São Francisco de Assis. O presépio também faz parte da exposição para lembrar o acontecimento maior de dezembro, hoje muito bem lembrado na sociedade de consumo. Vem-me à memória os versos do poeta baiano Wilson Rocha: “Não sei que sinos distantes / O natal ressuscita”. Os sinos da noite de natal ficaram quase mudos com as comemorações barulhentas das trocas de presentes. Artistas baianos, ou que viveram na Bahia, de várias gerações estão presentes na mostra com a imagem do santo, Lênio Braga, Raimundo Oliveira, Genaro de Carvalho, Poty, Carybé, Floriano Teixeira e outros. Muitas faces, algumas até contraditórias para o mesmo personagem, mas na arte o que conta não é o personagem e sim a imaginação do artista. Afinal de contas, estamos no museu, o templo da arte. O sagrado aqui é filtrado pela estética, pela semiótica, pela teoria da arte, sem esquecer a psicologia do artista. Estilos, técnicas e linguagens diferentes que mostram o olhar particular do artista quando inventa ou sonha a imagem do outro. A multiplicidade da linguagem da arte, São Francisco, presépio, natal, arte/religião, são questões para o espectador refletir durante o seu passeio na exposição. |
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Almandrade |
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ALMANDRADE, Antônio Luiz M. Andrade é arquiteto, poeta e artista plástico baiano, de Salvador. Como artista plástico já participou de quatro bienais internacionais em São Paulo, além de várias outras exposições no país e no exterior. Editou em 74 a revista “Semiótica” e, seus poemas procuram dar às palavras intensidade plástica, forma. Publicou os livros “O Sacrifício dos Sentidos”, “Obscuridade do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno” , “Arquitetura de Algodão”. É um dos grandes nomes brasileiros do poema visual e, já teve matéria sobre sua obra publicada na Revista Pampulha Envie seus comentários: visualidades@ligazine.com.br |
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Cinema (LIGA FANZINE) - O fantástico mundo das tela |
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