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QD'S NA EDUCAÇÃO |
Por Alberto Pessoa www.albertopessoa.rg3.net |
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Curso-Pós-Graduação Mestrado em Artes Visuais |
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QUADRINHOS,
HISTORIETAS OU TEBEOS: INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO ENTRE OS ADOLESCENTES NA AMÉRICA LATINA |
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Introdução As histórias em quadrinhos (Historietas ou Tebeos no resto da América Latina) podem ser um instrumento de educação e inclusão social entre os adolescentes na América Latina? Até que ponto os quadrinhos podem deixar de ser apenas um meio de entretenimento e ser uma fonte de geração de renda e orientação profissional? A arte seqüencial possui subsídios suficientes para ser uma ferramenta pedagógica para os educadores? Estas são algumas perguntas que tentarei responder neste artigo, baseado no texto Culturas jovens e cultura escolar do Sociólogo Emílio Tenti Fanfani, o cenário das Hqs na América Latina e o estudo de campo que venho realizando no ensino médio com o projeto Mamute! (www.albertopessoa.rg3.net).
A Escola Pública e o Ensino Médio As Escolas públicas, de um modo geral, oferecem aos alunos poucos recursos extras além das próprias aulas em seu período de funcionamento. A necessidade de desenvolvimento de trabalhos como oficinas de leituras, curso de informática, teatro, música entre muitos outros esbarram na falta de preparo de profissionais, na péssima remuneração que o educador da rede pública possui, obrigando a trabalhar em duas ou até três escolas diferentes e incapacitando de realizar projetos de oficinas e no próprio descrédito que o aluno tem em relação à escola. As iniciativas de ONGs esbarram em atitudes burocráticas e as propostas de atividades complementares realizadas pelo Estado são colocadas muitas vezes no esquecimento, devido a troca de governo ou pela própria incompetência administrativa. A escola, por assim dizer, acaba sendo questionada sobre a sua real importância na formação do aluno, neste caso especificamente, o adolescente. A sensação que o aluno está na escola por mera formalidade e sem uma meta definida fica latente. Isto fica muito mais claro quando o pequeno número de alunos do ensino médio que consegue cursar o Ensino Universitário (não posso usar o termo ensino superior quando temos Faculdades e Universidades com qualidade A, B, C, D ou E): O repertório discursivo fraco, a falta de conhecimento da própria escolha do curso e sua conseqüente falta de planejamento profissional. Muitos desses alunos acabam desistindo da graduação ou se formam, não como indivíduos atuantes no meio social, mas como meras ferramentas de trabalho. O ensino médio, segundo Fanfani, “tem um significado diferente do que tinha no projeto original dos sistemas educativos ocidentais. (...) Trata-se da última etapa da escolaridade obrigatória. Vale não só como etapa para os estudos superiores (valor que conserva), mas é algo como o novo teto da escolaridade obrigatória que em todas as partes tende a se prolongar até os 17 ou 18 anos da vida dos indivíduos. Nas condições atuais, o chamado ensino médio é um ensino” final “para a maioria da população e um momento de um processo de formação que tende a se prolongar, sobretudo, no arco de vida das pessoas (educação permanente)”. Na sociedade em que vivemos, porém, o adolescente não consegue se inserir no mercado de trabalho com o ensino médio. Requisitos como fluência em língua estrangeira, informática ou planejamento profissional não são oferecidos no ensino médio. Se considerarmos o ensino médio etapa “final”, logo, pressupomos que ele está apto a atuar no meio social e profissional. Os requisitos citados acima são itens apresentados em cada nove de dez anúncios de trabalho para o indivíduo com este grau de escolaridade. A faixa salarial das profissões com este nível de escolaridade também são alarmantes. A renda obtida é insuficiente para o indivíduo obter autonomia e solidificar uma vida social e financeira. Salvo a educação profissionalizante, o ensino médio tradicional não oferece ao aluno subsídios a não ser o conhecimento, que, apesar de termos tido vitórias em projetos e iniciativas de educadores, organizações não governamentais, ainda não consegue cumprir o seu papel em sua plenitude. A geração de adolescentes sem perspectivas é latente. Não é difícil ver jovens envolvidos com drogas, extremamente violentas ou meninas grávidas e sem a menor condição de criar filho algum. Formamos indivíduos aptos a serem empacotadores de hiper mercados ou na melhor das hipóteses operadores de telemarketing (caso a escola tenha um laboratório de informática que dê condições de acesso aos seus alunos). O ensino médio, antes de tudo, precisa ter sentido em existir e ser apresentado ao aluno como instrumento útil e transformador em sua realidade. Os professores não podem simplesmente reproduzir textos em lousa e supor que isto é suficiente para formar alguém. O professor deve entender que “os adolescentes e jovens são portadores de uma cultura social feita de conhecimentos, valores, atitudes, predisposições que não coincidem necessariamente com a cultura escolar e, em particular, com o currículo do programa que a instituição se propõe a desenvolver”. É função do Arte-educador estudar formas e propostas didáticas para divulgar e melhorar o ensino das artes nas Instituições de ensino. Ministrar aulas baseadas em livros didáticos de arte, sem considerar o aluno como formador de opinião e realizador de propostas artísticas é contribuir com a desigualdade social e educacional do país.
Os Quadrinhos Latinos Os quadrinhos são, na maior parte da América Latina, uma arte centenária. Em Cuba, Ricardo Torriente (1869-1934), produziu para a revista Gil Blas a Historia del asesinato de M. Gouffé (Ano I, Número 8, 28 de maio de 1890). Na Argentina as Historietas iniciam em 1898, com tiras na revista Caras y Caretas, de Bartolomé Mitre e José Alvarez e no Brasil, Ângelo Agostini tem histórias ilustradas datadas de 1867, já utilizando um personagem tipicamente brasileiro, o Nhô Quim. E, apesar de ser uma arte, em primeiro momento, voltada para a criança, muitos adolescestes mantém o interesse na leitura em quadrinhos devido à diversidade de histórias, gêneros para as mais diferentes idades e até mesmo como instrumento de luta ideológica. Um exemplo foi a biografia de Che Guevara (Che) criada em 1968 para o mercado chileno com texto de Héctor Oesterheld, arte de Alberto e Enrique Breccia. |
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Durante o sangrento regime militar que castigou a Argentina nos anos 1970, o jornalista italiano Alvaro Zerboni relatou: "Oesterheld sempre se manifestou como opositor do regime. Os militares, como todos os opressores, temiam sobretudo as idéias contrárias. Assim, puseram-se a caçar os opositores. Naquela época fiz várias viagens entre a Argentina e a Itália, encontrando-me várias vezes com Héctor, na clandestinidade. Todos temíamos por sua sorte, e tentei convencê-lo a vir comigo para a Europa. Hugo Pratt de forma especial insistiu muito nisso, dizendo que acolheria Hector de braços abertos." - Zerboni prossegue: "Quando eu disse isso a Oesterheld, ele me abraçou com força, para dominar sua emoção, e me respondeu que, naquele momento, seu lugar não poderia ser outro que não seu país. Ele havia acabado de perder uma filha, morta pelos militares (em seguida, eles assassinaram as outras três) e não era difícil compreender o seu modo de pensar. Algum tempo depois, soube que o haviam capturado; e então, lamentavelmente, seu nome se juntou à longa e crescente lista de desaparecidos". A respeito da morte de Oesterheld, Hugo Pratt comentou: "O que quer que tenha acontecido, foi uma vergonha para o gênero humano: destruir sua família, trucidar as quatro filhas e matá-lo daquela forma, foi um horror incompreensível. Só posso dizer que aprendi muito com Héctor. Do ponto de vista da técnica narrativa, aprendi com ele mais do que com qualquer outro". |
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Cuba é um outro exemplo interessante de como os quadrinhos pode ser um meio de comunicação, expressão e identificação cultural, mesmo se utilizando de um gênero criado e difundido em outra cultura totalmente diferente da cubana: O mangá (de origem japonesa). Segundo Roberto Hernandez, colecionador e estudioso de quadrinhos em Cuba, “Apesar de todas as dificuldades e barreiras culturais, o mangá passa, devagar e sempre, a existir enquanto escola em Cuba. E o mais interessante: com o fato de possuir uma pincelada caribenha. Ainda que inéditas em sua quase totalidade devido à crise da indústria editorial cubana, já proliferam um grupo de histórias em quadrinhos do chamado "mangá cubano". O fanzine Bum é uma amostra dessa tendência: ainda que em vias de ser aceito por alguma editora da ilha ou de além das suas fronteiras, reúne alguns interessantes trabalhos. É um fruto direto das sementes plantadas na oficina de quadrinhos criada em Havana por duas figuras de citação obrigatória quando se fala em quadrinhos cubanos: Manuel Pérez Alfaro e Francisco Blanco Avila. Histórias como Fobia, de Héctor S. González, Angel Hernández e Carlos Primelles são um exemplo genuíno do mangá cubano. A violência não é mostrada de maneira crua; o sangue não escapa pelos quadrinhos, borrifando na cara do leitor; também não corre pela rua até escorrer pelo esgoto. Tudo é apenas sugerido. E cada um, pelos gritos em forma de onomatopéias, pode, na sua imaginação colocar a intensidade de dor que achar apropriada. Os autores já prometem uma continuação. Em Jóvenes, realizada em 1996, é perfeitamente possível identificar a mais recente modalidade de transporte público de Cuba, apelidada de "camello" pelos cubanos, uma espécie de ônibus urbano montada sobre a carroceria de caminhões que coexiste ao lado de veículos importados e há alguns anos circula pelo país. Elementos da geografia da capital, como o malecón, uma espécie de parede espessa, que protege a cidade das ondas do mar do Caribe e o Morro de la Habana, são cenários evidentes e indiscutíveis onde a ação se desenrola. Por outro lado, os personagens não pertencem a uma única etnia, nem em sua totalidade possuem os grandes olhos e os cabelos rebeldes característicos das publicações japonesas. Como a própria ilha caribenha, onde no correr da história e sobretudo pelo desenvolvimento da indústria açucareira, constituiu um amálgama de raças, pela chegada de habitantes das Antilhas menores, Ásia, África e Europa; o mangá também expressa essa realidade que nos identifica como latinos. Totalmente editado em preto-e-branco, Bum não traz apenas mangás, mas também uma ou outra página humorística capaz de esboçar um sorriso até mesmo no leitor mais exigente. O uso do computador permite a obtenção de diferentes tons de cinza que completam o frescor e a originalidade dos seus roteiros, constituindo uma alternativa viável de diversificação da história em quadrinhos cubana que é impossível de se ignorar.” No Brasil são inegostáveis os exemplos de quadrinhos ideológicos, de público versátil e pensante. As publicações da editora Circo foram um exemplo de quadrinhos voltados para um público com idéias, conceitos e desejo de ler quadrinhos com conteúdo intelectual. Em suas piadas gráficas, Angeli, Laerte, Glauco, Newton Foot, Fernando Gonzales entre outros na verdade criticavam o atual cenário político, econômico e social brasileiro. Diferente dos quadrinhos das editoras Abril e Bloch (que editavam, em sua maioria, quadrinhos americanos cheios de aspectos lúdicos, como as cores e os desenhos mas com histórias vazias, que em nada reflete o jovem leitor latino) a Circo procurava desenvolver um projeto gráfico baseado no underground americano (artistas como Robert Crumb ou os irmãos Hernandez) mas com alma e concepção brasileira. Outros exemplos como Flávio Colin (1930-2002) merece ser citado. Provavelmente foi o maior quadrinhista regional que tivemos, realizando sempre obras que mostrasse, sem nacionalismo burro, características culturais e folclóricas do Brasil. Entre os seus trabalhos, podemos destacar O Anjo e Fawcett Abaixo, alguns comentários de Colin sobre os quadrinhos e seu gênero preferido, o Terror: “(...) quadrinho pra mim é uma coisa fantástica. Com certeza é um dos maiores veículos de comunicação. É imagem e texto sucinto, que você diverte e instrui. No Brasil, um país de semi-analfabetos e analfabetos, o quadrinho tem uma importância muito grande, mas é pouco usado.” ”Super-herói não dá! Artista brasileiro consegue publicar, com alguns rapazes de talento desenhando pros EUA, mas, muitas vezes, fazem anonimamente. No molde americano, como eles querem. Mas eu acho uma questão de mentalidade. O americano adora isso. É de sua cultura, porque o americano é o super-herói. Para eles, são os donos do mundo, os xerifes do planeta. Dominam tudo e são os mais bonitos, inteligentes e poderosos. |
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Então, super-herói vem a calhar. Eles se vêem num Super-Homem, Batman, Homem-Aranha, sei lá... Capitão América! Olha só o nome: Capitão América! Mas nós não somos nada disso! Então, é uma forçação de barra. Em compensação, somos mais inteligentes e temos mais noção de ridículo do que eles.”
“Há algum tempo recebi um fanzine de Fortaleza. Os desenhos
deles eram estilo mangá. Com tanto tema nordestino, e não estou
falando necessariamente em cangaceiros. Existem várias outras
figuras, até da cidade. O Brasil tem um litoral imenso, e não
existe história sobre isso. Faz coisas do nosso povo!
Os quadrinhos possuem baixo custo em sua aquisição e produção, sem falar na arte e no texto dinâmico contribuem para a massificação do gênero. Muitos adolescentes começam desenhando e escrevendo textos de própria autoria devido aos quadrinhos. Quando, porém, eles se deparam com a escola e as aulas de artes, muitas vezes esta manifestação artística se torna marginal e até confundida com vandalismo (assim como o grafite e estilos musicais de vanguarda como o Rap.) . Uma pena, se considerarmos que os quadrinhos propiciam: - Interdisciplinariedade - Matérias como História, Geografia e Artes podem atuar em torno de um assunto comum usando os quadrinhos, já que esta linguagem tem como meta contar um história usando imagens sequências e textos, ou seja, os alunos podem realizar um trabalho sobre o combate à Dengue usando os elementos históricos da Dengue no Brasil (história), retratar na HQ uma história onde há os maiores focos de Dengue no Brasil (Geografia) e a criatividade e fundamentos de desenho na execução do gibi (Artes)
- Leitura de Imagens – - Intercâmbio entre outras Artes - O Projeto "Outras Palavras" na escola FDE (fundação para o desenvolvimento da educação) foi um trabalho que ofereceu oficinas de quadrinhos, artes plásticas, teatro e música. Carlos Morgani, um dos professores desse projeto, atualmente professor de quadrinhos na escola Quanta - Academia de Artes, comenta à respeito: " O trabalho consistia em aulas de Quadrinhos, formação de um grupo de discussão e ia desde as aulas básicas até a confecção de um FANZINE ( resultados das histórias em quadrinhos)" - Alfabetização - Os quadrinhos apresentam na sua estruturação a mescla entre a linguagem e a imagem. Em supletivos, o adolescente, procura além de escrever as palavras que conhece, inserir dentro de um contexto e sentido da sequência de imagens que ele procurou desenhar. Caso o aluno não saiba associar a palavra a determinado desenho, ela vai procurar e aprender uma nova palavra, pois a necessidade e vontade de terminar a história da maneira que foi imaginada vai propiciar essa prática de aprendizado. Além disso as onamatopéias também estimula no desenhista a relação entre sons e palavras. - Fundamentos do desenho - As Histórias em Quadrinhos tem como função contar uma história e, as imagens utilizadas para mesma consiste de elementos retirados da realidade. mesmo se a história for de um alienígena, a estrutura utilizada como referência é a humana ou alguma coisa que já está processada no consciente do quadrinista. Para isto porém, o artista precisa ter sólidos conhecimentos em anatomia e perspectiva, elementos básicos no desenho. A escola ideal e os quadrinhos Acredito que todo o educador sério possua uma idéia de escola ideal. A questão é que para passar do idela para o real depende de basicamente três fatores básicos:
- Mobilização social – Enquanto as comunidades, grupos e sociedade como um todo não discutir e exigir uma escola que oriente e ensine de maneira real, que atue como um agente de transformação social, a escola vai continuar no lugar confortável de uma instituição que está naquele lugar porque, obrigatoriamente, crianças, adolescentes, homens e mulheres passam ou já passaram naquelas carteiras para poder se alfabetizar e, assim, ler e escrever. Essa instituição, porém, não se responsabiliza por inserir, nesse cidadão a compreensão daquilo que ele está escrevendo ou lendo. Formamos alienados, e, uma sociedade alienada não pode ser outra coisa à não ser uma população subjulgada e atrelada a miséria social.
- Ação Governamental – O Estado deve passar todos os recursos necessários para a formação de uma educação inclusiva e de qualidade. Não basta todos terem acesso à educação de má qualidade. Educação custa caro e não pode existir economia ou desvio de verbas neste setor. Segurança, instalações adequadas, professores com recursos pedagógicos, sala de informática com acesso, organização da escola como instituição entre outros itens que escritos poderia render um outro artigo.
- Atitude dos Professores – Somos profissionais que devemos enxergar o nosso real papel na sociedade que vivemos. Não podemos culpar estado ou sociedade quando o assunto é atualização profissional e postura ética enquanto educador. Ensinamos temas e valor. O aluno é um reflexo do professor e, um profissional que só sabe dar broncas e escrever textos em lousas vai ter um aluno com o mesmo “comprometimento”. Não reprodutores de textos. Somos formadores e divulgadores de conhecimento e não podemos desviar desta missão. Seria o mesmo que negar a profissão escolhida.
Os quadrinhos podem e são um instrumento de produção e divulgação de conhecimento. Fanfani enumera uma série de itens que poderia ser inseridos na caracterização de uma escola ideal. De todos, vou enfatizar este item:
“Uma instituição que não se limita a ensinar, mas que se propõe a motivar, interessar, mobilizar e desenvolver conhecimentos significativos na vida das pessoas.”
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