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No dia seguinte, Marcos e Cristina não foram trabalhar. Dormiram
até tarde e conversaram pouco. Era ainda difícil lidar com o que
tinha acontecido: o seqüestro de Cristina, o homem de preto.
Marcos quase o matara. Pela primeira vez em sua vida, ele quase
tirara a vida de uma pessoa e esperava jamais precisar voltar a
fazer isso.
Ele foi o primeiro a acordar e se sentiu feliz por ter Cristina
ao seu lado.
Só damos valor ao que perdemos e ele quase perdera a esposa.
Como forma de demonstrar o seu carinho, ele a beijou na testa.
Cristina acordou desesperada e afastou-o com um empurrão. Então
percebeu que era ele e o abraçou, chorando. Seus olhos ainda
estavam vermelhos quando tomaram café e ela não disse uma única
palavra. Na verdade, evitava o olhar do marido.
Na hora do almoço, Marcos quebrou o silêncio.
- Sabe, ontem, enquanto procurava você, eu pensava o tempo todo
em minha mãe.
- Você me falou muito pouco de sua mãe. - disse Cristina,
aliviada por ele ter , finalmente, tomado a iniciativa da
conversa.
- É verdade. Falo muito pouco de minha mãe. Ela morreu muito
cedo... quando era pequeno, eu podia ouvir, sentir, cheirar,
perceber o gosto das coisas de forma extremamente minunciosa. E
eu podia voar. Levei algum tempo até descobrir que as outras
pessoas não tinham as mesmas habilidades que eu tinha. Lembro
das crianças caçoando de mim quando eu perguntava se elas podiam
voar...
- É sério? Você achava que todo mundo podia voar?
- Achava. Eu não me sentia especial. Para mim, eu era como
qualquer outro...
Cristina segurou sua mão e apertou-a, como se lhe dissesse,
através de gestos, que sim, ele era especial para ela.
- Poucos meses depois que descobri esses talentos, comecei a
ouvir vozes.
Há algum tempo li um livro que dizia que crianças costumam
conversar com pessoas desencarnadas e pensei: Era isso! Era isso
que acontecia comigo. Eu falava com espíritos e eles me davam
conselhos, me antecipavam o futuro...
uma vez eles me disseram para não pegar um ônibus e depois
descobri que esse ônibus havia sofrido um acidente...
- E a sua mãe?
Marcos abaixou os olhos.
- Um dia ela acordou, disse que o café estava pronto e saiu para
trabalhar.
Eu estava lavando o rosto quando ouvi o seu grito. Saí correndo.
Havia várias pessoas olhando assustadas para um corpo estendido
no chão. Eu abri caminho entre elas e encontrei minha mãe caída
no chão, o sangue escorrendo de sua boca. Ela morreu em meus
braços. Nem deu tempo de chegar ao hospital... Naquele momento,
eu tive ódio das vozes que falavam comigo. Por que elas não
haviam me avisado? Eu teria voado e tirado minha mãe do caminho
do carro... Por que me avisaram quando eu ia pegar o ônibus que
sofreria o acidente, mas não me avisaram quando minha mãe ia
morrer? Por quê?
Marcos ficou em silencio, como se remoesse essa pergunta dentro
de si.
- Talvez ela devesse morrer. - foi a reposta de Cristina. Talvez
fosse algo que eles não pudessem lhe contar...
- Sim, talvez. - concordou Marcos, fungando. Mas na época eu só
podia pensar que minha mãe estava morta e eles não haviam me
avisado. Eu era um menino de 10 anos, sozinho no mundo. De certa
forma, amaldiçoei meus talentos, assim como amaldiçoei as vozes.
De que me adiantava poder voar, se isso não servira para que eu
salvasse minha mãe? De que adiantara minha superaudição se eu
não escutara o carro se aproximando dela?
Novo silêncio. Marcos tampou os olhos, tentando esconder as
lágrimas.
- Depois disso, nunca mais ouvi as vozes. Também nunca mais usei
meus poderes. Até um ponto em que eu me esqueci completamente
deles. Isso até alguns dias atrás, quando eu acordei com uma dor
de cabeça terrível...
- Você tinha me falado do orfanato, mas nunca tinha me contado
sobre sua mãe.
Cristina pegou as mãos de Marcos e olhou com ternura.
- Estou muito feliz ao seu lado. Para mim, você é especial. E
estou mais feliz ainda por você estar,finalmente, se abrindo
comigo...
Os dois se beijaram e ele a levou para o quarto. Fizeram amor
durante muito tempo, como se não existisse o tempo e quisessem
aproveitar cada segundo.
* * *
À tarde, Marcos foi à banca de revistas ver se algum jornal
havia noticiado os acontecimentos do dia anterior. Descobriu que
a Gazeta Popular publicara uma edição extra, vespertina, para
contar os fatos da prisão do chamado "maníaco do porão". Era uma
edição magra, com apenas 12 páginas, letras garrafais e muita
propaganda. Mas ainda assim estava "vendendo como banana", como
disse o jornaleiro.
O jornal informava que fora encontrado, inconsciente, na noite
anterior, o homem que provavelmente era o responsável pelo
desaparecimento de várias mulheres em Santa Helena nos últimos
anos. Estavam em um porão. O delegado responsável pelo caso
dizia que a prisão só fora possível graças a uma denúncia
anônima.
"Junto com ele", dizia a reportagem, "foram encontradas duas
mulheres. Uma delas, identificadas como Wilma Aparecida dos
Santos, 31 anos, havia desaparecido há um ano no estacionamento
da empresa em que trabalhava. Ela estava desnutrida e com
ferimentos nos pulsos e nas pernas. A outra mulher não foi
identificada e, segundo os policiais, parece ter desaprendido a
andar e a falar".
A matéria continuava falando sobre as condições em que as
mulheres foram encontradas e tinha declaração de um perito da
polícia, segundo o qual a mulher não identificada havia sofrido
sérios problemas de personalidade:
"Esse psicopata conhecia fundamentos de psicologia
comportamental e usou isso para condicionar essas mulheres e
fazer delas o que bem entendesse".
Sob o porão os policiais haviam encontrado vários corpos em
decomposição e até esqueletos. Aparentemente, o cheiro do
cortiço abafava o fedor dos corpos em decomposição, razão pela
qual os vizinhos nunca desconfiaram de nada.
A matéria trazia declarações de vários vizinhos dizendo que o
maníaco parece absolutamente normal. Uma vizinha lembrou que ele
a ajudava a cuidar do jardim e sempre oferecia sucos e biscoitos
para as crianças da rua.
Segundo o jornal, o psicopata havia sido derrotado pelo marido
da vítima mais recente, mas não sabia dar informações sobre quem
era esse misterioso salvador.
Por alguma razão, outra notícia chamou a atenção de Marcos:
FANTASMA ASSOMBRA LOJA DE DEPARTAMENTOS
Um boato está colocando em polvorosa os funcionários de uma loja
de departamentos muito conhecida na cidade: o local estaria
sendo freqüentado por um fantasma. Uma funcionária afirmou ao
nosso jornal que um homem entrou no vestiário e não saiu. Quando
foi procurar por ele, encontrou apenas algumas roupas velhas.
Marcos não leu o resto. Dobrou o jornal, colocou debaixo do
braço e rumou para casa.
Estava decidido a abandonar a sua vida de vigilante. O que
acontecera na noite anterior o deixara preocupado. Ao utilizar
suas habilidades, ele teria contato com assassinos, ladrões,
traficantes, corruptos... pessoas que poderiam ter o impulso de
se vingar. Ele não temia por si, mas por sua esposa grávida.
Marcos havia discutido isso com Cristina e ela concordou. Temia
pelo futuro e queria ter o marido ao seu lado, e não voando pela
cidade à noite, quando ela ficaria sozinha.
Ele protegeria a cidade, mas quem protegeria sua esposa? As
imagens de sua mãe morta, estendida no chão, ensangüentada...
Marcos jamais se perdoaria se algo assim acontecesse à sua
esposa.
Um Hare Krishna o parou, interrompendo seus pensamentos. Falava
rápido e sua voz parecia vazia de significado. Em certo momento
ele estendeu a Marcos um livro grosso. Meio a contra-gosto e
mais para se livrar do assédio, ele pegou o livro. Chamava-se
Bagavad-Gita. Marcos abriu uma página ao acaso e
leu:
"Dedica-te à obra exclusivamente, jamais aos seus frutos. Tuas
ações não devem ser motivadas pelo proveito que possam trazer;
não deve tampouco te abandonares à inação. Firme na yoga,
executa tuas obras sem apego nem interesse, permanecendo o mesmo
qualquer que seja o resultado, feliz ou adverso".
Marcos devolveu o livro e voltou a andar, como que hipnotizado.
As palavras que lera haviam causado uma impressão profunda em
sua alma. Da mesma forma que antes estava decidido a abandonar
sua atividade como vigilante, agora estava decidido a
continuá-la.
Mas para isso precisava de algo que encobrisse sua identidade.
Chegando em casa, conversou sobre isso com Cristina e
decidiram-se por um capote e um capuz levantado.
À noite, quando assistia ao telejornal, viu uma matéria especial
sobre um homem que estava salvando pessoas na cidade.
A reportagem dizia inclusive, que o estouro do cativeiro do
maníaco do porão se devesse a esse misterioso herói.
Nas ruas, algumas pessoas já começavam a lhe dar um nome: anjo.
O anjo. Era assim que o chamavam. Precisava estar à altura do
nome. |
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