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Os
Estados Unidos é um país 'sui generis'. O povo americano desfruta de
seu conforto e riqueza na absoluta ignorância daquilo que se passa no resto
do mundo. Devido a essa ignorância, o povo desconfia de seu próprio governo,
de seus órgãos de inteligência, de suas operações no exterior. O povo
americano sabe que seu governo anda metido em sujeira pelo mundo afora,
ultrapassando a soberania de outros países para impor os interesses de suas
mega-corporações, e que os engana na própria América também.
Ao mesmo tempo, o americano médio ainda
acredita que seu país é a terra da virtude e da justiça. Deus está do lado
da América. A verdade e a razão estão ao lado da América. Como é possível
conciliar, no imaginário coletivo, essas duas crenças contraditórias? A
virtude do povo e a vilania do governo? Através do cinema, obviamente. Se no
Brasil tudo acaba em samba (ou em pizza), nos Estados Unidos, tudo acaba em
filme. O destino natural de toda história, reportagem, livro, peça de
teatro, história em quadrinho ou biografia é virar um filme.
Mais do que um mero produto de exportação
mundial da indústria cultural, Hollywood é a usina onde se forjam
conciliações ideológicas, ideais políticos, filosofias de vida e modelos
comportamentais. Um dos mitos básicos mais explorados pela indústria
cinematográfica é o confronto entre Davi e Golias. Assim como toda história
de amor imita Romeu e Julieta, para ser suficientemente dramática, toda
história de aventura, para ser suficientemente emocionante, imita a lendária
disputa bíblica entre o jovem e o gigante. Todo mocinho de filme americano é
a princípio inexperiente, relutante, desastrado, motivo de riso, até se
defrontar com uma força infinitamente superior, para vencer o desafio com
seu instinto, seu charme e sua boa sorte.
Esse mito funciona quando opõe os heróis vindos do povo contra os figurões
do governo e das corporações. Mas derrapa quando é usado para opor heróis
americanos a inimigos externos. No panorama mundial, os Estados Unidos são o
Golias da história. Eles são o gigante opressor que castiga os fracos e
indefesos ao redor daquilo que enxergam como seu quintal mundial. Enquanto
que para consumo interno, o público americano continua acreditando que seus
rapazes de farda são os Davis, os pobres e indefesos defensores dos valores
americanos, cercados por uma malta inominável de vilões hostis e malvados. É
essa esquizofrenia que subjaz ao argumento de inúmeros filmes de guerra,
desde a série sobre a Guerra do Vietnã, de longa tradição, até mais
recentes, como “Falcão Negro em Perigo”. Sempre os mesmos jovens e virtuosos
americanos, retratados como heróis indefesos diante de milicianos famélicos
que morrem como moscas, porque suas vidas valem mesmo muito menos que as dos
americanos.
De um jeito ou de outro, Golias enxerga a si mesmo como Davi. Essa ilusão
ganha realidade quando um atentado como o de 11 de Setembro passado revela
aos americanos até onde vai a disposição daqueles que os odeiam.
Subitamente, os americanos se descobrem cercados por uma humanidade hostil e
vingativa. E redescobrem o próprio heroísmo. A ilusão de Davi e Golias se
torna real pelas mãos de um presidente dedicado a explorar a ignorância de
seu povo para se impor pelo medo. Eles, os pobres americanos, a nação
inocente e desprotegida, dona de milhares de ogivas nucleares, tem que se
proteger contra os diabólicos inimigos externos.
A ignorância provinciana do cidadão americano médio se combina com o
oportunismo de uma claque política criptofascista disposta a tudo para fazer
valer os interesses das corporações petrolíferas e armamentistas. Disposta
inclusive a passar por cima, como o fez, das urnas, da Constituição, da ONU,
do direito internacional e da soberania dos povos. Numa inversão de palavras
e de valores capaz de fazer corar Orwell, a retórica oficial da Casa Branca,
coadjuvada pela CNN e suas congêneres, transforma o governo Bush em
vanguarda da civilização contra a barbárie islâmica.
Até aí, nada de novo. A década de Clinton, os anos 1990, foram a década da
globalização, a década de um discurso único, de liberdade dos mercados, que
na verdade era a liberdade para os americanos atuarem nos mercados dos
outros. Incautos de diversas proveniências compraram esse discurso como
supra-sumo de modernidade. Agora, no alvorecer do século XXI, os ingratos do
terceiro mundo retribuem essa década de benevolência neoliberal com um
atentado monstruoso. Que morram então todos os terroristas! Washington pega
em armas. O tio Bush quer você para o exército!
A falência da globalização, demonstrada pelas crises do México, da Ásia, da
Rússia, do Brasil, da Argentina, da Nasdaq, fica em segundo plano diante da
apocalíptica guerra contra o terrorismo. Ninguém mais está preocupado com a
fragilidade do sistema econômico mundial, com sua crise permanente em estado
de iminência, com a insolvência dos paises pobres, com os balanços forjados
das megacorporações. Tudo isso é secundário diante de uma cinematográfica
luta do bem contra o mal: de um lado, o Pentágono, fortaleza avançada da
racionalidade capitalista, imperialista e americana; de outro, a Al Qaeda, a
rede do mal, soturna, oblíqua, oculta, como o lado negro da força. Uma
autêntica obra de ficção, um bode expiatório, um vilão para todas as horas.
Problemas na economia? Medo de perder as eleições por patente incompetência
administrativa? Uma manchete sensacionalista resolve, mudando o foco das
questões: atenção! A Al Qaeda ameaça fazer novos atentados!
Os atentados deram legitimidade política à facção mais reacionária e
particularista do capital norte-americano, as finanças, o petróleo e a
indústria armamentista, através de seus prepostos expressamente mercenários
no governo Bush. Disso já se sabia há muito. O que se especulava era sobre a
possibilidade dos atentados terem algum efeito pedagógico sobre a opinião
pública americana, ensinando-a a questionar os atos de seu governos e os
efeitos de sua políticas sobre o mundo. As recentes eleições gerais
demonstram que ocorreu precisamente o contrário.
Os eleitores americanos morderam a isca. Caíram na retórica do medo (da qual
felizmente escapamos no Brasil), na paranóia criada pelo Grande Irmão
Presidente, no frenesi de uma vingativa guerra sem fim e sem objetivos
concretos. O que é o terrorismo? Quem são os terroristas? Bush sabe. Bush, o
debilóide. A ele é confiada a liderança do mundo livre nessa guerra. Uma
guerra contra um inimigo sem contornos definidos, sem critérios para
escolher seus alvos nem para se declarar encerrada. Uma guerra contra os
inimigos internos e externos. Uma guerra feita para durar para sempre, para
dar o poder eterno à indústria armamentista, o fôlego extra a uma economia
combalida que passa a estar lastreada em crédito para o consumo destrutivo
armamentista; uma guerra para estabelecer o estado de sítio permanente, o
estado de exceção na “maior democracia do mundo”, a suspensão dos direitos
civis das minorias e dos estrangeiros e simpatizantes automaticamente
tornados suspeitos, a denúncia sistemática, a tortura, o ódio. Em suma,
todos os elementos previstos por Orwell em “1984”!
O paroxismo do totalitarismo, previsto na célebre utopia negativa como uma
crítica aos desvios do socialismo real, realiza-se agora em pleno auge da
globalização capitalista ocidental e americana! Depois de dez anos da queda
do muro, o sistema “vencedor” da Guerra Fria revela ao mundo sua verdadeira
face irracional, opondo dois inimigos igualmente bárbaros, medievais, Bush e
Bin Laden (ou Saddam, ou qualquer outro boneco do “eixo do mal”), num
conflito que ameaça arrastar o mundo para um turbilhão de desgraças que
todos já imaginavam ter ficado para trás, na primeira metade do trágico
século XX. |
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