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RESENHA: |
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Por Janus Mazursky |
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'Estrada
para Perdição' pertence à categoria dos filmes feitos para o
Oscar. Na segmentada indústria cultural americana, existe a época e
o momento apropriados para lançar cada tipo de filme. Na época das férias de
verão, saem os filmes de aventura com efeitos especiais, produzidos para
levar multidões de adolescentes ao cinema e estourar recordes de bilheteria.
No fim do ano, saem os filmes de prestígio, feitos para serem indicados ao
Oscar do ano seguinte.
O novo filme do astro Tom Hanks (“bicampeão” do Oscar) e do diretor Sam Mendes está portanto nessa segunda categoria. Tudo nele revela um apurado trabalho de produção, desde as cenas cuidadosamente fotografadas, até a música de alta qualidade, que às vezes chega a parecer um pouco carregada de sentimentalismo. Tudo feito para impressionar e emocionar, o que realmente acontece, graças à competência e honestidade dos envolvidos no projeto. O diretor, em seu segundo trabalho depois o excelente 'Beleza Americana', vencedor do Oscar de 1999, explora bem a sutileza do roteiro para criar climas evanescentes e sugestivos. Trata-se de um filme de época, ambientado nos anos 1930, numa América fria, cinzenta, triste e abalada pela Depressão. Num filme de gângsters, a história é contada mais pelos olhares, pelos momentos de silêncio, pela música meditativa, do que pelos tiroteios e perseguições automobilísticas. Há meia dúzia de cenas que já nasceram clássicas, como a do tiroteio final, debaixo de chuva. E mesmo assim, com toda essa elaboração artística, 'Estrada para Perdição' não deixa de ser um bom filme de gângster, com a dose adequada de violência, rivalidade, trapaça, cinismo e malandragem do submundo do crime.
'Estrada para Perdição' será, se de fato indicado, um caso raro de concorrente do Oscar cuja história é baseada numa HQ. Acontece que a HQ que deu origem ao filme, chamada igualmente 'Estrada para Perdição', infelizmente ainda não foi publicada no Brasil. É impossível avaliá-lo, portanto. Mas é possível avaliar a história que lhe deu origem. O gibi americano que deu origem ao filme foi por sua vez baseado num gibi japonês, um mangá. Trata-se do clássico 'Lobo Solitário', que já teve alguns episódios publicados no Brasil, de forma acidentada e descontínua. A qualidade dessa história explica a qualidade do filme. No Japão as histórias em quadrinho são consideradas produtos de prestígio, assim como o são nos EUA os filmes que concorrem ao Oscar. Os mangás também são segmentados. Há aqueles dedicados aos adolescentes, às donas de casa, aos empresários, etc. 'Lobo Solitário' é um mangá de prestígio, uma obra artística de grande consistência literária. Trata-se então do caso de uma HQ com pedigree que deu origem a um filme de igual nobreza. Um acaso feliz que permitiu aos artistas da sétima arte desenvolver na tela grande os conceitos de um tradicional mangá japonês. 'Lobo Solitário' é um épico samurai, que desvenda a alma do povo japonês e faz reviver em toda sua riqueza e tragédia o período Tokugawa, o período histórico e cultural formador do Japão, anterior ao atual, que é o período da industrialização, da tecnologia e da assimilação dos valores do Ocidente. O período Tokugawa começa com a tomada do poder por Ieyasu Tokugawa, que ascendeu ao cargo de Shogun no ano 1600, pondo fim ao século de guerras civis entre as grandes famílias nobres. Com o fim das guerras civis tem início uma época de grande estabilidade e estratificação social. Todas as camadas sociais passam a ter seus papéis e suas vidas traçadas por rígidas leis promulgadas pelos Shoguns Tokugawa. Aos camponeses cabia trabalhar e sustentar a sociedade. Era-lhes proibido ter armas. Aos clérigos e monges cabia rezar. E aos guerreiros, nobres (daimios) e soldados (samurais), cabia lutar. A eles cabia estudar e desenvolver as artes da guerra, que hoje conhecemos como artes marciais. A pertença a uma determinada classe era determinada pelo nascimento e não era possível mudar de uma classe para outra. Em cada atividade da sociedade, surgiu um espírito de disciplina e dedicação ao dever que elevou todas as profissões a um nível de elaboração artístico e ritual. A vida dos membros de cada classe social era um ritual complexo e elaborado de etiqueta e estética. Os ocidentais conhecem as gueixas e a cerimônia do chá, mas não conhecem a filosofia por trás dessas performances, que existia em todos os demais momentos da vida social. Tudo era regido por uma mescla de ascetismo e austeridade budista com estética xintoísta, animista. Na era Tokugawa foi consolidado o “bushidô”, o código de ética dos guerreiros. Pelo espírito do bushidô, o objetivo da vida do samurais é morrer na defesa da honra de seu clã e seu mestre. Há um senso de auto-sacrifício brutal que desemboca no culto ao suicídio como forma suprema de coragem, honra e obediência. Ora, com o fim das guerras civis, na era Tokugawa, a ética dos guerreiros fica sem sentido no momento mesmo em que se consolida. Não há mais guerra para lutar, não há mais bandeiras para serem honradas com o sacrifício da própria vida no campo de batalha. Como a América de 'Estrada para Perdição', em que não há emprego para capangas e leões de chácara. É nessa contradição que se desenrola o drama narrado em 'Lobo Solitário'. O samurai Ito Ogami, de sua alta posição de executor oficial do Shogun, encarregado de executar nobres rebeldes e suspeitos de hostilidade ao governo Tokugawa, é derrubado por uma intriga de um clã rival, retirando-se para o interior do país. Ele se torna um “ronin”, um samurai sem mestre, um bandido, um mercenário, que coloca seu apurado domínio das artes da espada a serviço das intrigas e disputas surdas que não tem outro meio de se resolver nessa sociedade estratificada senão por meio de marginais. Seu objetivo é provocar escândalo e atrair a atenção das autoridades sobre o seu caso, para desencadear uma investigação e desmascarar o clã que o caluniou. Como Michael Sullivan, que atravessa os EUA roubando dinheiro da máfia para que o chefão Al Capone seja obrigado a enquadrar o antigo chefe de Sullivan.
Mas talvez os criadores do filme nem tenham tentado reproduzir o mangá, guiando-se pela história tal como está contida no gibi americano. O que torna a adaptação ainda mais extraordinária, pois apesar de toda a ambientação visual, rigorosamente americana, o cuidado com a atmosfera de um grupo da máfia irlandesa, católica, etc.; a estética samurai fica evidente em diversos momentos. O espírito do filme é o mesmo fatalismo japonês do mangá. Um destino brutal aguarda todos aqueles que se colocam à margem da rígida lei do shogunato. O desvio só pode ser punido com a morte. Uma morte, um erro, uma injustiça, só podem ser lavados com sangue. A morte de um só pode redundar na morte de vários outros, até que o círculo esteja completo. Um assassino jamais deixa seu trabalho incompleto. Famílias inteiras devem perecer, se preciso, para que o equilíbrio possa ser restabelecido. É preciso ter a coragem e a honra de trilhar até o fim o caminho escolhido, mesmo que isso signifique pagar com a própria vida. Essa é a “trilha do assassino”, como Ogami chamava sua vingança. É esse o espírito do mangá e do filme. Depois da tempestade, surge a possibilidade de um novo começo. O narrador do filme, o filho de Sullivan explica então como escapou incólume e inocente a esse turbilhão de violência. Quanto ao filho de Ogami, ficamos sem saber como terminou sua saga, esperando que algum dia sua história possa ser publicada entre nós de forma completa e digna do prestígio que merece. |
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Estrada para perdição (Road
to Perdition) Direção: Sam Mendes; Roteiro: David Self, baseado em graphic novel de Max Allan Collins e Richard Piers Rayner; Produção: Sam Mendes, Dean Zanuck e Richard D. Zanuck; Música: Thomas Newman e John M. Williams; Fotografia: Conrad L. Hall; Desenho de Produção: Dennis Gassner; Direção de Arte: Richard L. Johnson; Figurino: Albert Wolsky; Edição: Jill Bilcock; Efeitos Especiais: Cinesite Hollywood. Elenco: Tom Hanks (Michael Sullivan); Paul Newman (John Rooney); Jude Law (Harlen Maguire); Jennifer Jason Leigh (Annie Sullivan); Stanley Tucci (Frank Nitti); Daniel Craig (Connor Rooney); Tyler Hoechlin (Michael Sullivan Jr.); Liam Aiken (Peter Sullivan); Ciarán Hinds (Finn McGovern); Dylan Baker (Alexander Rance); David Darlow (Jack Kelly); Doug Spinuzza (Calvino); Rob Maxey (Dono da drogaria) |
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>> Janus Mazursky é Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Santo André e Graduando em Filosofia pela FFLCH-USP |
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Cinema (LIGA FANZINE) - O fantástico mundo das tela |
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