RESENHA:
Dragão Vermelho

 

 

Por Janus Mazursky

jmazursky@bol.com.br

 

  De vez em quando, os executivos de Hollywood cometem grandes bobagens. Na ânsia por faturar alguns milhões de dólares com o prestígio de filmes importantes, armam-se continuações fajutas, que não contam com o mesmo impulso criativo autêntico do original. Criam-se verdadeiros 'frankensteins' cinematográficos, filmes de gabinete, onde um produtor contrata um diretor, um roteirista e um elenco e os coloca no liquidificador dos estúdios, na esperança de que dessa alquimia surja algo tão lucrativo quanto o filme que está sendo imitado. O resultado é o desastre, como bem sabem os aprendizes de feiticeiro. 'Hannibal' é um desses casos. Junta-se um Ridley Scott preguiçoso com um Anthony Hopkins canastrão e um Gary Oldman patético para produzir um 'trash' vexaminoso. Um filme que fica a anos-luz de distância do já clássico 'Silêncio dos Inocentes'.

De vez em quando, os executivos consertam a bobagem que fizeram. Uma série que parecia morta e enterrada por um segundo filme horroroso é ressuscitada e volta a ser interessante por força de um terceiro filme que retoma o espírito do original. 'Dragão Vermelho' é um desses casos. Junta-se um diretor regular e esforçado como Brett Ratner, o sempre ótimo Eduard Norton, um relaxado Anthony Hopkins, um competente elenco de apoio com Harvey Keitel, Emily Watson, Ralph Fiennes e Phillip Seymour Hoffman e tem-se um excelente suspense policial.

Claro que depois do prejuízo causado por 'Hannibal', fica difícil fazer qualquer comparação com o filme original. O canibal foi transformado em personagem principal da série. É como se os produtores quisessem dar mais um pouco de Hannibal Lecter para saciar a sede de maldade do público. Mas a idéia por trás de 'Dragão Vermelho' não é essa. O filme é baseado no primeiro livro de Thomas Harris, o autor dos best sellers em que se basearam os outros dois filmes, apesar de ser o terceiro a ser filmado. Se bem que na verdade trata-se de uma refilmagem, pois o mesmo livro foi filmado por Michael Mann em 1986. Tentou-se vender este 'Dragão Vermelho' como sendo o filme que conta a história que como o canibal Hannibal foi preso.

Mas a idéia também não é essa. O dr. Lecter é preso logo no início do filme. A situação a ser explorada é praticamente a mesma de 'Silêncio dos Inocentes', em que o psiquiatra psicopata colabora com a polícia para ajudar a elucidar os crimes de outro serial killer. A diferença é que se trata do próprio policial que o prendeu. Uma das teses do dr. Lecter sobre o assassino é de que ele está evoluindo, está aprendendo com seus crimes, tornando-se mias letal e perfeito entre uma carnificina e outra. Podemos aplicar a tese para o próprio Thomas Harris.

O conceito do "psiquiatra-psicopata-que-auxilia-um-policial" estava ainda em desenvolvimento nesse 'Dragão Vermelho', chegando à sua elaboração mais perfeita somente no livro seguinte, que deu origem ao 'Silêncio dos Inocentes'. O primeiro livro, que é o terceiro filme, é um ensaio para a verdadeira obra-prima. Um ensaio que já revela excelentes qualidades, mas ainda não está completa.

Talvez o que falte a esse 'Dragão Vermelho' para concorrer com seu primo mais famoso seja um pouco da complexidade psicológica que há em 'Silêncio'. O autor encontrou um mote genial, mas ainda não o desenvolveu plenamente. O dr. Lecter não analisa o policial que o prendeu como faz com a agente Sterling, que viria consultá-lo depois. A relação entre os dois não é tão bem desenvolvida. Não é tão fundamental para a resolução da trama, não é tão catártica quanto seria para a agente Sterling.

O que leva o policial ao 'Dragão Vermelho' do título não é uma sofisticada sutileza psicológica, conforme a expectativa do espectador deseja. É um detalhe mais "policialesco", "detetivesco", convencional, que não nos revela meandros profundos e sombrios da alma humana. Não entrega exatamente o que prometia. Mas em compensação traz um bônus, que é a nervosa relação que se desenvolve entre os personagem de Ralph Fiennes e Emily Watson.

A fórmula ainda estava em maturação, mas já era poderosa. Trata-se ainda de um ensaio, mas nem por isso o espectador sai ileso do cinema. O 'Dragão Vermelho' pode não ser um competidor à altura do 'Silêncio, se se quiser saber qual dos dois filmes é o melhor. Mas trata-se mais de um caso de verdadeira continuação, de relação autêntica entre dois argumentos, do que de uma continuação caça-níqueis daquelas a que estamos habituados.

 
 

 

 
 

Dragão Vermelho (Red Dragon)
EUA, 2002 - 126 minutos
Estúdio: Universal Pictures /
Dino De Laurentiis Productions / Scott Free Productions

Direção: Brett Ratner; Roteiro: Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris; Produção: Dino De Laurentiis e Martha Schumacher; Música: Danny Elfman; Fotografia: Dante Spinotti; Desenho de Produção: Kristi Zea; Direção de Arte: Steve Saklad; Figurino: Betsy Heiman; Edição: Mark Helfrich. Elenco: Anthony Hopkins (Hannibal Lecter); Edward Norton (Will Graham); Ralph Fiennes (Francis Dolarhyde); Emily Watson (Reba McClane); Mary-Louise Parker (Molly Graham); Harvey Keitel (Jack Crawford); Philip Seymour Hoffman (Freddy Lounds); Anthony Heald (Dr. Frederick Chilton); Robert Randolph Caton (Patrono do museu); Barbara Kerr Condon (Avó Dolarhyde); Tyler Patrick Jones (Josh Graham); Ken Leung (Lloyd Bowman); Anthony Reynolds (Rankin); Tom Verica (Sr. Leeds); Ellen Burstyn (Sra. Dolarhyde - voz)

 
     
 

>> Janus Mazursky é Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Santo André e Graduando em Filosofia pela FFLCH-USP

 
     
   

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